Tag: vento

  • Agouro

    As casas não tinham muro, ficavam de frente para o mar, a alguns poucos passos, vistas da encosta, principalmente nas noites de maré cheia, lembravam barcos ancorados com suas luzinhas apagando a cada vento mais forte. As contruções foram feitas de acordo com a curva do litoral, nas casas mais recuadas dava para ver de longe as silhuetas dos vizinhos em suas janelas sempre abertas, só não havia por que olhar, todos tinham as mesmas coisas, os mesmos hábitos, moravam lá há mais tempo do que podiam lembrar, não existia um caminho pra chegar no povoado, a saída dependia da dunas, mesmo em épocas de areia plana era raro algúem ir embora.

    O mar era o som, incessante e inescapável, era incocebível sentir falta da sua presença, mas aconteceu. A primeira concha apareceu em frente a casa da Margá, era diferente de tudo que a maré costumava trazer, grande e de cor escura, a forma era espiralada e coberta de pequenas pontas pontiagudas. Levar conchas ao ouvido é um costume de quem está longe do mar, aqui o ato era desncessário, mas algo no formato de redemoinho impeliu Margá a isso, o que ela não ouviu, foi uma quietude escura, sensação que era desconhecida em sua vida, silêncio e depois tudo permaneceu assim.

    O mesmo aconteceu nas areias dos outros casebres, as conchas apareceram inevitáveis, quem as avistou, caminhou em sua direção e as levou ao ouvido, ainda que soubessem o depois, seguiram envoltos em escuridão, incapazes de ouvir. Cada família foi afetada, aos poucos, mesmo os que ainda podiam escutar tornaram-se apáticos, não restava algo a ser dito, com o silêncio não perceberam o mar calar e recuar até não ser visto, e então, um estrondo.

  • Ventilador

    É abril e dizem que o calor está insuportável, 30º o dia inteiro e a sensação térmica é ainda pior. Não é o que sinto. Escuto (e leio) as reclamações junto com o constante som de algum dos meus 3 ventiladores, um no quarto, um no escritório e um para sala e cozinha. Certamente passo pelo menos 20h do meu dia sendo ventilado por algum dos 3.

    2 dos ventiladores são daqueles modelos menores, que precisam de um banco ou de uma cadeira para ficarem na altura em que estou sentado ou deitado.

    O que fica no escritório é um modelo mais compacto e pouco silencioso, ele permanece ligado a mesma quantidade de horas que eu trabalho, além da função inicial de diminuir o calor do ambiente, confesso que me afeiçoei ao barulho constante, funciona como um ruído branco e me ajuda a concentar bem mais do que qualquer música. O posicionamento é algo essencial, gosto que ele ventile a maior parte do meu tronco e pescoço, mas não gosto de sentir vento no ouvido, tenho medo que isso possa prejudicar minha audição.

    O ventilador do quarto é maior e mais silencioso que o do escritório, o posicionamento também é bastante diferente, o ângulo precisa estar direcionado para mim, mas não para minha namorada, ela não compartilha meu amor por ventiladores, o segredo aqui é colocar o vento em direção aos meus pés, isso já é o suficiente para que eu não acorde com calor durante a noite.

    O terceiro ventilador é um de modelo coluna e bastante forte, o vento dele não fica direcionado para uma parte do meu corpo, sua função é a de arejar o ambiente e dissipar o calor, por ser o mais barulhento e por os momentos de lazer terem menos espaço em nossas rotinas (infelizmente), esse é o ventilador que passa menos tempo em uso.

    Reservo um parágrafo para comentar sobre a função que torna o eixo dos ventiladores móvel e faz com que eles girem em um ângulo de aproximadamente 160 graus — ou, 3 segundos de felicidade e 9 segundos de espera e aagonia até que o vento volte para sua direção. Aqui em casa essa função só é usada quando temos visitas e não quero demonstrar egoísmo ou predileção a alguém do gupo.

    Por fim gostaria de enumerar as vantagens do ventilador em relação ao seu concorrente, o ar-condicionado: [1] é mais econômico, [2] é portátil , [3] permite que apenas uma pessoa do recinto usufrua de seu uso, função essencial para aqueles que se relacionam com pessoas friorentas. Há ainda as macro razões, estudos comprovam que ao amenizar o calor de forma imediatista, os aparelhos de ar-condicionado influenciam diretamente na emissão de gases que tornam nossa atmosfera cada vez mais quente, insustentável e principalmente insuportável.

    Na redação desse texto, não houve interesse por parte do autor em pesquisar possíveis malefícios do uso prolongado de ventiladores.