O jornal vai fechar, é o último dia da histórica redacão, a edição já está pronta e os que ainda estão nas mesas são os que não sabem o que fazer com suas noites, agora que o que os manteve ocupados por 40 anos acabou. O prêmio de melhor metáfora pra definir o que todos sentiam foi para o Afonsinho — Parece que vamos ter que parar a bola porque nossa mãe está chamando e o jantar vai ser sopa. De vez em quando até o novato emplaca uma boa.
Todos na redação estão curiosos pra saber o que vai ser do Parreira e do Délio, agora eles não terão a desculpa do trabalho para passarem o dia juntos, os dois vivem em amigáveis turras, é impossível imaginá-los separados. O Parreira é/era o réporter de rua mais antigo do jornal, Délio o melhor fotojornalista, segundo o próprio seu maior trabalho era impedir sua dupla de mentir muito, ele estava lá para que o povo não precisasse ler o que estava escrito — Basta a foto.
Em um incomum arroubo com as palavras Délio declarou que a saudade do jornal seria tanta, que era capaz de acabar numa igreja pela primeira vez, só para sujar as mãos no papel que agora ficaria para as orações, claro — Limites Délio, limites. declarou Parreira com seu conhecido bordão.
O mais velho, o que não escrevia e o mais novo( mesmo que Afonsinho já estivesse trabalhando no jornal há 7 anos, o apelido de novato nunca o abandonou) foram os que ficaram para o apagar das luzes, os veteranos estavam claramente mais abalados, quase nocauteado Parreira murmurou algo sobre o crescimento dos blogs, foi surpreendido por um — Limites Parreira, limites, o golpe inesperado tinha vindo de Afonso, o que fez os três darem uma última gargalhada, era mesmo hora de fechar, até o novato estava ganhando intimidade com os jornalistas de verdade, reagiu Parreira. O trabalho estava feito, apagaram as luzes, mas deixaram a porta aberta.







