Ter um gato me trouxe felicidade e a constante preocupação de ele não beber água suficiente. Gatos são conhecidos por seus problemas renais na velhice, então decidi que, desde cedo, a hidratação seria uma prioridade em nosso apartamento. Tentei usar uma fonte, mas meu gato preferiu o consumo de água parada. Por isso, espalhei diversos potes de vidro por todos os cômodos, mesmo assim, ele só bebe em uma única tigela, que fica no corredor entre a sala, o quarto e o escritório.
Passei a prestar atenção no gato bebendo água. Infelizmente, isso não acontece muitas vezes durante o dia, em média, são três vezes, cada uma dura uns 43 segundos. Paro tudo o que estou fazendo, fico imóvel e em silêncio assistindo o momento, fico inexplicavelmente feliz, não é raro ser um dos melhores momentos do meu dia.
Estudo e trabalho em casa. Infelizmente, meu convívio social está bem reduzido e, quando tenho a chance de contar os grandes acontecimentos dos meus dias, eles acabam não sendo tão grandes assim. Exemplo de grandes momentos recentes foram: ter acertado todas as questões sobre o uso dos “porquês”, o dia em que o gato bebeu água quatro vezes e a vaga maravilhosa que consegui ao estacionar no shopping.
Na hora, não tenho noção de como os assuntos saem da proporção razoável. Quando percebo, já estou falando sobre a mini máquina do tempo que meu gato gera ao beber água e que faz com que tudo ao redor pare, ou sobre como aquela vaga é provavelmente uma das melhores do shopping inteiro — melhor do que isso, só aqueles carros promocionais que ficam do lado de dentro.
Penso em documentar tudo. Que tal uma planilha da hidratação? Ou o blog melhoresvagas.wordpress.com? O pior é que sou incentivado pela minha namorada. Demora um pouco até eu me acalmar e as coisas voltarem ao normal. Fico calado, penso no tempo entre o carro e o shopping: foram só uns 40 segundos, igual ao gato bebendo água, espero que ele esteja hidratado hoje.