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  • Pé quente e pé frio

    Juntos os dois eram perfeitos, eram a inveja entre os casados e o sonho dos solteiros, em público Afrânio e Marcela trocavam sorrisos, elogios e gentilezas. A semelhança entre os dois era mesmo impressionante, pareciam ensaiados, se estavam em ambientes separados e eram perguntados sobre algo, defendiam as mesmas ideias, usavam quase as mesmas palavras.

    Mas entre quatro parede nem tudo são flores, o casal amava a fama que os precedia, durante o dia tudo corria as mil maravilhas, o problema surgia no apagar das luzes — Para ser mais exato no ligar do ventilador, Marcela sente muito calor e não consegue pegar no sono sem um ventinho, já Afrânio é friorento e odeia tudo sobre o vento, odiava o barulho e detestava a sensação em seu corpo. A conciliação noturna parece inegociável.

    Ao longo dos anos foram nove ventiladores das mais diferentes marcas e modelos. A cada nova tentativa o ventilador anterior era passado para algum parente da família (tia Vânia ficou com dois deles, o calor parece ser hereditário na família de Marcela), sempre com muita discrição para que a imagem do casal fosse mantida e a constante troca não despertasse suspeitas desnecessárias. O modelo mais silencioso foi o quinto a ser testado, esse ventilador precisou ser comprado duas vezes, já que ele já havia sido substituído por outros testes mal sucedidos.

    Além do barulho o vento em si era o grande obstáculo do casal, foram feitas várias experiência de distância e angulação, tudo para chegar no posicionamento e intensidade ideais. No fim, o que gerou menos desavenças foi virar o ventilador apenas para os pés de Marcela, mesmo assim o resultado não foi bom, Afrânio não dormia de frio, Marcela não fechava os olhos com tanto calor.

    As noites insones minaram os dias perfeitos do casal, depois de algum tempo a separação foi inevitável e chocou a todos. Quando alguém indiscreto pergunta sobre o que aconteceu, Afrânio costuma dizer que casamento é assim mesmo, tem que ser pé quente para dar certo. Já Marcela, culpa a má sorte e diz que foi pé frio no casamento.

  • Ventilador

    É abril e dizem que o calor está insuportável, 30º o dia inteiro e a sensação térmica é ainda pior. Não é o que sinto. Escuto (e leio) as reclamações junto com o constante som de algum dos meus 3 ventiladores, um no quarto, um no escritório e um para sala e cozinha. Certamente passo pelo menos 20h do meu dia sendo ventilado por algum dos 3.

    2 dos ventiladores são daqueles modelos menores, que precisam de um banco ou de uma cadeira para ficarem na altura em que estou sentado ou deitado.

    O que fica no escritório é um modelo mais compacto e pouco silencioso, ele permanece ligado a mesma quantidade de horas que eu trabalho, além da função inicial de diminuir o calor do ambiente, confesso que me afeiçoei ao barulho constante, funciona como um ruído branco e me ajuda a concentar bem mais do que qualquer música. O posicionamento é algo essencial, gosto que ele ventile a maior parte do meu tronco e pescoço, mas não gosto de sentir vento no ouvido, tenho medo que isso possa prejudicar minha audição.

    O ventilador do quarto é maior e mais silencioso que o do escritório, o posicionamento também é bastante diferente, o ângulo precisa estar direcionado para mim, mas não para minha namorada, ela não compartilha meu amor por ventiladores, o segredo aqui é colocar o vento em direção aos meus pés, isso já é o suficiente para que eu não acorde com calor durante a noite.

    O terceiro ventilador é um de modelo coluna e bastante forte, o vento dele não fica direcionado para uma parte do meu corpo, sua função é a de arejar o ambiente e dissipar o calor, por ser o mais barulhento e por os momentos de lazer terem menos espaço em nossas rotinas (infelizmente), esse é o ventilador que passa menos tempo em uso.

    Reservo um parágrafo para comentar sobre a função que torna o eixo dos ventiladores móvel e faz com que eles girem em um ângulo de aproximadamente 160 graus — ou, 3 segundos de felicidade e 9 segundos de espera e aagonia até que o vento volte para sua direção. Aqui em casa essa função só é usada quando temos visitas e não quero demonstrar egoísmo ou predileção a alguém do gupo.

    Por fim gostaria de enumerar as vantagens do ventilador em relação ao seu concorrente, o ar-condicionado: [1] é mais econômico, [2] é portátil , [3] permite que apenas uma pessoa do recinto usufrua de seu uso, função essencial para aqueles que se relacionam com pessoas friorentas. Há ainda as macro razões, estudos comprovam que ao amenizar o calor de forma imediatista, os aparelhos de ar-condicionado influenciam diretamente na emissão de gases que tornam nossa atmosfera cada vez mais quente, insustentável e principalmente insuportável.

    Na redação desse texto, não houve interesse por parte do autor em pesquisar possíveis malefícios do uso prolongado de ventiladores.