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  • Olho mágico

    Em dias de semana, de 08 às 17 tenho um trabalho estável, tão tedioso quanto é possível, na maioria dos dias tenho que cuidar das crianças, do meu casamento e da casa, então são raros os dias em que posso ficar no escritório com a porta fechada, mas quando isso acontece, juro que ele torna-se o lugar mais silcencioso. Do lado de dentro, não há nada que outros escritórios também não tenham, é verdade que me orgulho de ter herdado algumas coisas da firma do meu pai, a mesa é de um tipo que não se fabrica mais, foram necessárias 4 pessoas fortes pra traze-la até aqui; Minha esposa se deu o luxo de gastar uma pequena fortuna em uma cadeira moderna e confortável, já a estante de livros foi projetada por uma amiga arquiteta, fomos intencionais no contraste entre o clássico dos móveis herdados e os traços de modernidade que acrescentamos.

    Conquistei a reponsabilidade de dar os toques finais na reforma, foi em uma visita a um antiquário que meus olhos brilharam por uma linda e envelhecida porta vermelha com um olho mágico prateado, essa compra estava totalmente fora do nosso escopo, mas não resisti. É raro que eu tenha arroubos consumistas, geralmente penso cada passo com cuidado. Para instalar a porta precisei mudar o tamanho do vão de alvenaria, todas as características da minha compra são de uma porta que fica em ambiente externos, ninguém tem um olho mágico dentro da própria casa, mas esse foi um detalhe que demorei a perceber.

    Meu rompante foi questionado por minha esposa, mas como nosso relacionamento é de cúmplices, logo ela embarcou na proposta. O resultado ficou no mínimo peculiar, a entrada do escritório distoa do restante da casa, mais parece que criamos uma passagem pra outra residência, as visitas costumam ficar curiosas, então criou-se uma pequena anedota de que temos um mundinho secreto e paralelo, tão sigiloso que temos até um olho mágico pra saber quem deseja entrar.

    Passamos a acreditar no pequeno causo, lá não sou contador, quando estou de porta fechadas me sinto outro, sou capaz de criar o que não esperam de mim, passei a me dedicar a escrita de um pequeno romance policial nosesnse, sou capaz de passar horas imerso na história. Quando minha esposa deseja falar comigo, ela bate à porta, me espanto com só 7 passos me separam da minha vida real, no início fiz por brincadeira, mas acabei por adquirir o hábito de checar no olho mágico quem está do outro lado.

    O contrário também parece ser verdadeiro, em seus horários no escritório, não faço ideia das atividades da minha esposa, suspeito de que ela não faça nada relacionado aos seus pacientes, espio e não ouço nada, o olho mágico não me deixa ver sequer algo distorcido. Talvez essa seja uma boa habilidade para o meu detetive, decido que ele conseguirá olhar de fora para dentro, assim como nossa porta, ele também terá um olho mágico.