Tag: mar

  • Agouro

    As casas não tinham muro, ficavam de frente para o mar, a alguns poucos passos, vistas da encosta, principalmente nas noites de maré cheia, lembravam barcos ancorados com suas luzinhas apagando a cada vento mais forte. As contruções foram feitas de acordo com a curva do litoral, nas casas mais recuadas dava para ver de longe as silhuetas dos vizinhos em suas janelas sempre abertas, só não havia por que olhar, todos tinham as mesmas coisas, os mesmos hábitos, moravam lá há mais tempo do que podiam lembrar, não existia um caminho pra chegar no povoado, a saída dependia da dunas, mesmo em épocas de areia plana era raro algúem ir embora.

    O mar era o som, incessante e inescapável, era incocebível sentir falta da sua presença, mas aconteceu. A primeira concha apareceu em frente a casa da Margá, era diferente de tudo que a maré costumava trazer, grande e de cor escura, a forma era espiralada e coberta de pequenas pontas pontiagudas. Levar conchas ao ouvido é um costume de quem está longe do mar, aqui o ato era desncessário, mas algo no formato de redemoinho impeliu Margá a isso, o que ela não ouviu, foi uma quietude escura, sensação que era desconhecida em sua vida, silêncio e depois tudo permaneceu assim.

    O mesmo aconteceu nas areias dos outros casebres, as conchas apareceram inevitáveis, quem as avistou, caminhou em sua direção e as levou ao ouvido, ainda que soubessem o depois, seguiram envoltos em escuridão, incapazes de ouvir. Cada família foi afetada, aos poucos, mesmo os que ainda podiam escutar tornaram-se apáticos, não restava algo a ser dito, com o silêncio não perceberam o mar calar e recuar até não ser visto, e então, um estrondo.