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  • Tive ilhas

    Não é nada de mais, mas já fui proprietário de algumas ilhas enquanto era pequeno. Principalmente nas férias e em alguns finais de semana por ano, meus pais gostavam de frequentar o encontro do rio com o mar, ao contrário de mim meu pai é um exímio nadador e me levava em suas costas até os bancos de areia formados pela maré, claro que na minha cabeça infantil eu chamava de ilhas, foi aí que surgiram as negociações com meu pai.

    Ao chegar nas ilhas eu fazia um breve reconhecimento territorial, avaliava o perímetro, a distância para as margens, quanto tempo ela resistiria aos avanços da maré, a partir disso começavam as negociações para aquisição da ilha, meu pai gostava de usar como moeda de troca massagens no pé, idas à cozinha para buscar cerveja, ou uma engraxada nos seus sapatos de trabalho. O câmbio costumava ser bastante flutuante, numa maré particularmente propícia cheguei a adquirir uma ilha por 5 dias de massagem nos pés.

    Dependendo do dia eu podia me dedicar a construir uma pequena fortaleza de areia para proteger meu território da invasão de outras crianças que também tinham pais nadadores, mas isso era raro, como as ameaças costumavam ser poucas, eu gastava um tempo considerável desenhando bandeiras com um graveto, caso fosse possível usava conchas para incrementar os desenhos. Minha bandeira favorita foi a da Ilha Piaba, nesse dia encontrei alguns peixinhos que ficaram na areia com eles fiz uma mórbida bandeira dispondo os peixinhos em um triângulo, ainda assim fui elogiada por meu pai, houve uma tentativa de registro em uma fotografia que não resistiu bem ao incerto processo de revelação de fotos dos anos 80.

    Tive uma infância realmente rica, já fazem algumas décadas que não compro uma ilha, de lá pra muita coisa mudou, a economia piorou bastante, só engraxar sapatos ou buscar cervejas já não é o suficiente para adquirir uma ilha. Mesmo do ponto de vista geográfico e de acesso a questão ficou difícil, meu pai já não consegue me carregar nas costas e eu nunca aprendi a nadar, a própria maré já não enche tanto quanto antes, muitos dos bancos de areia que formaram meu arquipélogo privado, agora já são acessíveis a pé.