Com 11 anos o então Daniel era um fanático torcedor do Clube de Regatas Vasco da Gama, para um menino pobre ir ao estádio era algo impossível, então seu conhecimento vinha dos programas de rádio e dos álbuns de figurinha não oficiais que ele conseguia comprar na porta do colégio. Para ser querido por todos no início da adolescência bastava jogar bola bem e Dani era o melhor das ruas do bairro, o menino era tão bom que até jogava com os mais velhos, o único da sua idade a conseguir esse feito. Dani não era de falar muito, mesmo assim no ínico de outubro já estava todo mundo sabendo que em poucos dias ele ganharia de aniversário uma camisa do Vasco, com número 10 atrás e tudo, geral estava feliz e na expectativa do presente.
Para Dalva comprar o presente do filho era um sacrifício, com tanto trabalho e com o menino o dia inteiro jogando bola os dois conviviam pouco, apesar disso eram extremmante próximos, de noite os dois dividiam o radinho, primeiro escutavam um pouco sobre o Vasco, depois passavam paras as músicas, cada um cedia um pouco para deixar o outro contente. Dalva mal poderia esperar para ver o olhos do filho ao abrir a camisa do seu time, o dinheiro seria bem gasto, afinal o menino era tão bom, tão querido por todos.
Nunca uma reação foi tomada de forma tão rápida, talvez os reflexos de jogar bola na rua tenham contribuído para lidar com o que aconteceu, ao rasgar o pacote a camisa alvo e negra estava lá, mas no lugar da cruz vermelha havia uma estrela branca. A mãe não percebeu o que para qualquer criança mimada seria um erro imperdoável, Dani não deu margem para dúvidas, sabia bem tudo que a mãe passava para fazê-lo feliz, o menino foi só sorrisos e vesiu a camisa imediatamente.
Quando pisou na rua com o uniforme não havia como voltar atrás, foi logo anunciando que a partir de agora seu coração estava dividido, era torcedor do Vasco e do Botafogo, quem achasse ruim não precisava nem escolher para o mesmo time. Apesar da determinação do Dani não teve jeito, na data do seu décimo segundo aniversário ele ganhou o apelido que o acompanharia por toda vida, o Casaca. Obviamente vira-casaca era um apelido muito longo para ser usado na correria de um jogo, então em semanas ficou só Casaca mesmo, o menino não ligou muito, pelo menos ele continuava sendo convidado pra todos os jogos, nunca era o escolhido para ficar de fora, além do mais, ele era tão alucinado por futebol que passou a gostar de ter dois times pra torcer, mesmo seu caso sendo bastante raro e motivo de piadas.
Dalva estranhou a nova alcunha do filho,mele desconversou rápido, disse que eram coisas da bola e que nem ligava pro apelido, ainda demorou alguns bons anos até a mãe notar em alguma TV que o uniforme do Vasco e o inseparável uniforme do seu filho não eram iguais.
Até hoje o Casaca leva o apelido, nas suas mãos a história que podia ser amarga ganhou cores (preto e branco) alegre. Não foram poucas as mulheres que caíram de encanto pelo relato de um menino que ainda tão novo soube colocar sua mãe acima do futebol que ele tanto fala, essa foi uma enorme prova de amor, e se tinha feito algo assim pela mãe, poderia muito bem fazer novamente, dessa vez por uma namorada e futura esposa. Duro era encarar a rodada dupla do Brasileirão, nem todo mundo aguenta dois radinhos ligados simultaneamente.
