Não tive muitos brinquedos, meus pais até podiam arcar com esse gasto, mas o que eles me contam é que eu não tinha os mesmos interesses das outras crianças, o que mais me divertia era um jogo criado por minha mãe — por sinal sigo com ele ainda hoje, 40 anos depois. As regras eram simples, eu deveria criar uma brincadeira ou usar como brinquedo um objeto qualquer, isso durava algo entre horas ou dias, eu me destraia até minha mãe me dar outra coisa e esse era nosso trato.
Claro que os objetos não eram usados em sua função original, palitos de fósforo viravam soldados em guerra, com a colher de pau brinquei de trator por três dias, infelizmente após o fim das escavações ela não pôde retornar para a cozinha e ficou relegada a uma pequena cratera no quintal. Os adultos da famíla ficaram encantados por quão fácil eu me distraía, aos poucos tios e tias passaram a me encher de objetos estranhos e obsoletos, era comum encontrar na minha prateleira de brinquedos moedas antigas, pagers quebrados e peças de algum motor no prego. Cada tio/tia sentia um cumplicidade ao ouvir sobre o que cada quinquilharia tinha virado em minhas mãos.
Olhando para trás, eu não era tão criativo assim, muitas vezes o formato do objeto meio que já dava um indício de como a brincadeira aconteceria, eu era fortemente influenciado por quadrinhos e pelo que assistia na televisão. De tudo que brinquei, um objeto ficou especialmente marcado, além de ser o único que resistiu ao passar dos anos, é um anel em vidro preto, a parte que fica voltada para as costas da mão é mais grossa e forma um pequeno retângulo. Por dias fui meu herói favorito a vagar pelas florestas de Bangalla enfrentando toda espécie de criminosos, eu fui o Fantasma. Minha mãe me cedeu a posse definitiva do anel mesmo antes de saber que eu tive progressos na minha jornada de gravar o desenho de uma caveira na parte plana.
Foi assim que não minha filha acabou sem brinquedos para herdar, no entanto ensinei para ela a mesma brincadeira inventada por minha mãe. Até que ela se sái bem, claro que os tempos são outros, não é qualquer objeto que a distrái, me esforço para não intervir nas histórias que ela cria. Amanhã será um teste de fogo, depois de algumas décadas encerrarei minha jornada como o Fantasma, passarei para frente o anel de vidro preto com os garranchos de uma caveira, certamente ele não será mais usado para proteger Bangalla, é mais provável que ele vire acessório de um figurino de K-pop, não cabe a mim decidir, o importante é que a tradição do anel seguirá.