A escolha da escola da minha filha me trouxe muitos questionamentos. Sempre quis que ela crescesse em contato com os valores mais humanos e progressistas, então foi com encanto que li o programa pedagógico que propunha a participação ativa dos pais na realização das atividades. É verdade que eu não esperava que esses valores sociais fossem financeiramente tão custosos. Também a distância entre o pequeno sítio, que funciona como sede da escola, e nossa casa é bem maior do que eu gostaria. Mas tudo valeria a pena. Afinal, quantos pais podem participar tanto da vida escolar de suas crianças?
Logo no primeiro mês letivo, o e-mail convite para a construção e manutenção do galinheiro foi a certeza de que tomei a decisão correta. A proposta era que construíssemos um lar para 20 galinhas, que, ao longo do ano, forneceriam ovos e, eventualmente, serviriam como insumo para a refeição das crianças. O objetivo maior do galinheiro era ensinar às crianças sobre a origem da nossa alimentação. Toda a teoria de uma cadeia alimentar seria colocada em prática com esse projeto. A ideia foi aclamada pelo grupo de pais; mesmo os veganos e vegetarianos apoiaram. É assim que queremos criar nossas crianças: plenamente conscientes das consequências das atitudes que tomamos.
Por não ter habilidades motoras tão desenvolvidas, fiquei no grupo responsável por ajudar as crianças a alimentar e cuidar das galinhas. E aqui começa o meu aprendizado com essa história. Claro que, com o distanciamento próprio aos leitores, é fácil apontar os meus erros e como eles, obviamente, iriam cobrar um preço alto. Foi um engano grave deixar a minha filha batizar uma das galinhas com o próprio nome, mas o carisma da Fernanda galinha era inegável. Eu mesmo fui rendido pela situação e, mesmo após todos os ocorridos, não me arrependo das minhas escolhas. Fernanda era claramente diferente das outras: mais inteligente, mais “humana”. Seu comportamento a separava das demais. O elo entre ela e minha filha era único. Logo nós três concordamos que seria impossível que ela acabasse no fundo de uma panela.
Tentei seguir os caminhos óbvios. Conversei com o grupo de pais sobre o diferente destino de Fernanda. Não seria melhor que ela fosse poupada? Eu e minha filha tomaríamos todos os cuidados necessários. Fui rechaçado pela maioria. Apenas o pequeno núcleo vegano e vegetariano tomou meu partido. Os votos foram insuficientes. O argumento da maioria era de que eu estava querendo prejudicar o experimento. Não era esse o objetivo. Nossas crianças – e, pelo visto, até mesmo eu – tínhamos que aprender a lidar com a morte que se aproximava em formato de canja.
Não tive escolhas. Fiz o que qualquer pai de uma menina que compartilha seu nome com uma galinha faria: coloquei as Fernandas no carro e fugimos. Tudo de caso pensado. Agimos na sexta-feira para ter tempo de pensar em uma logística que funcionasse. Ainda seria preciso convencer minha esposa, que, até então, só havia participado da etapa de construção do galinheiro. Foi apenas na segunda-feira que virei piada no grupo de WhatsApp. Nossa fuga foi descoberta, mas gerou tanta incredulidade e piadas que sanções administrativas não foram tomadas a respeito. Minha pena foi ter que lidar com a Fernanda galinha. Nosso pequeno grupo de pais progressistas soube fazer bom uso do humor.
De fato, não foi fácil. Criar uma galinha na cidade só é mais fácil do que educar adequadamente uma criança. Eis o desfecho da nossa fuga: após extensos questionamentos, consegui levar Fernanda galinha para a propriedade de um amigo. Ele me garantiu que lá ela vive plenamente feliz, não como essas galinhas das caixas de ovos. De fato, visitamos ela com certa frequência. Fernanda filha garante que dá para ver nos seus olhos galináceos que sua xará é grata pela mudança. O carisma da galinha foi tão grande que se prolongou para toda a sua espécie. Já são 22 dias que não comemos animais em nosso apartamento. A lição aprendida na escola foi até melhor do que previ, afinal, quantos pais podem participar da fuga de uma galhina e acabar tornando a família vegetariana no processo?