Tv por assinatura foi um dos privilégio mais constantes que tive durante minha infância e adolescência, desde muito cedo meu pai foi um fiel assinante da Sky e pude crescer tendo acesso aos canais Telecine e HBO, na época eu não tinha ideia, mas no começo dos anos 2000 isso era uma regalia rara pra um adolescente de classe média, aproveitei passando minhas horas livres depois do colégio assistindo tudo que passava.
Mesmo com acesso a tv acabo eu tinha uma limitação muita característica do século XX, eu podia escolher os canais, mas não o programa ou filme que queria, eu estava restrito ao que era exibido em uma faixa de horário. Coincidiu com o início do meu ensino médio a chegada de um aparelho da Sky que gravava a programação de maneira fácil, isso mudou bastante meus gostos e minha vida, foi o primeiro contato que tive com os programas de talk show e late night —Acho que passei a assistir porque era o que meus pais mais costumavam gravar, comecei a acompanhar o Programa do Jô e o Late Night with David Letterman, fiquei completamente apaixonado por esse formato e muito do meu gosto para livros e música são desdobramentos do que conheci nessa época. Nunca mais assisti tanta TV como entre 2006 e 2012, minha pouca dedicação ao ensino médio foi compensada tortamente com programas de entrevista, muito da minha escolha por um curso na área de humanas também veio disso.
Na metade da década seguinte fiquei órfão do Jô e do Letterman, os programas chegaram ao fim e meu tempo livre diminuiu bastante, pude enfim fazer outras coisas que não fossem ver TV. Já com bastante acesso a internet, perdi a mudança de geração nos Late Nights, fui e sou um expectador irregular dos dois Jimmys (Fallon e Kimmel), dos outros apresentadores americanos acompanhei só alguns quadros e de forma esporádica. Com os Talk Shows nacionais a desconexão foi mais grave, sem o Jô não vi mais graça em nada do que tivemos depois, boicotei ativamente todas as tentativas de um substituto, nada na TV foi tão importante, para mim o lugar de entrevistas passou a ser podcasts, não talk shows.
Faz pouco tempo que voltei para o formato, voltei a ter mais tempo, e me interessei muito ao assistir ao documentário da HBO, A História do Late Night, também da HBO, a série Hacks e minha grande queridinha, A Maravilhosa Senhora Maisel, da Amazon Prime Video. Querendo ser um bom adulto do finalzinho do século XX, decidi voltar acompanhar, quis ter um Late Show para chamar de meu — Tenho uma atração por coisas que estão a beira de serem extintas, acho que quero viver o que eu achava ser a vida de um adulto enquanto eu crescia, devolvam as livrarias, bancas de revista, lojas de vinis e locadoras, sinto saudade até de ficar mudando pelos quase 100 canais da TV a cabo.
O escolhido para o meu retorno foi o Late Show with Stephen Colbert, cheguei no apagar das luzes, para ver o programa na íntegra eu ia ter que assinar mais um serviço de streaming, fiquei só no You Tube, por lá vi as principais entrevistas e os quadros mais famosos, mas meu engajamento total coincidiu com o aviso de que em breve o programa chegará ao fim, dnovo me sinto órfão, dessa vez de forma muito precoce e graças ao avanço da extrema direita. Começo meus dias vendo o monólogo que o Colbert fez tarde da noite anterior, gasto horas do meu dia pensando no que foi dito, como o Stephen conduz bem os assuntos, penso em quem seria nosso Colbert no Brasil e enquanto leio sobre algo imagino que piadas encaixariam bem para serem contadas na versão de um late night que acontece todos os dias na minha cabeça antes de cair no sono.
Uma versão desse texto seria o que usaria no meu primeiro monólogo, não tem muitas piadas, meus roteiristas também imaginários iam ter um problema pra deixar esse roteiro redondo, acho que ia ter que ser uma daquelas entradas mais emocionantes e menos sérias. Os primeiros entrevistados da minha atual obsessão seriam o Jô e o Colbert.