• Quando a gripe passar


    Faz pouco sentindo começar algo novo no trabalho às 16h30 de uma sexta, se a dieta tiver desandado numa quinta, o melhor é desistir e esperar a próxima segunda, quem  sabe seja o caso de esperar início do próximo mês, há inclusive os extremistas que renunciam ao ano no finalzinho de outubro, afinal, se tudo deu errado nos dez meses, não são os dois que restam que irão fazer alguma diferença.


    Infelizmente sofro desse mau, uma interseção de procrastinação e apego por datas com “número fechados “, sei que não faz sentido, mas segundas parecem datas mais propícias para o início de algo, dia primeiro e dia quinze também soam bem para um começo. Gostaria de não ser assim, já tentei mudar esse hábito em inúmeras segundas e dias primeiros, até mesmo a mágica segunda que caí no dia primeiro não foi suficiente pra romper esse ciclo.


    Então veio um gripe, foram três dias acamado, tempo suficiente para achar que eu nunca mais ficaria bom, foram horas insones pensando o quanto ter saúde é subestimado, só costumo pensar nisso quando estou passando muito mal. Fiz auto promessas e planos pra quando a gripe passase, mas calculei errado, eis que fiquei curado num sábado, dia 09 de agosto, véspera de feriado, a semana mais do que praticamente encerrada. Como vou ter forças pra começar uma dieta com a iminência de um churrasco no domingo?, ir para academia então é impossível, mesmo que quisesse (não é o caso) ela não estaria aberta, simplemente não parece certo começar algo assim.

    Deito na cama e sinto um pouquinho da febre voltar, achei que o fim da gripe tinha o potencial de ser uma virada de chave, um marco, o equivalente às 8h da manhã de uma segunda, seria memorável contar que mudei de vida e que as coisas passaram a melhorar depois que fiquei bom de uma gripe. Estava tudo planejado, mas não foi dessa vez, quem sabe na próxima eu consiga.

  • Maçã do amor, morango do amor e Raul Seixas

    Em 34 anos nunca comi uma maçã do amor, e olha que gosto de maçã, ela pode não ser a melhor fruta, mas é a melhor escolha pra o dia a dia. Maçãs jamais estão em falta no mercado, resistem bem ao período que ficam na geladeira e seu sabor é uma constante, nas palavras do Raul Seixas “porque quem gosta de maçã irá gostar de todas porque todas são iguais”. O caso fica mais grave, as maçãs do amor foram sempre associadas a contextos de felicidade extrema para uma criança, estavam a venda nos circos e parques de diversões, repetidamente estavam lindas, vermelhíssimas, por fim, ainda contam a vantagem de estarem gravadas em nosso imaginário coletivo, elas são presença constante nos filmes, mas a sensação que tenho, é a de que, apesar de tudo a seu favor, maçãs do amor não são tão consumidas, reitero que nunca provei, sequer tenho lembranças reais de alguém próximo ter comprado ou feito uma.

    Não sei a quantas semanas a moda está rolando, mas num curto período de tempo provei o morango do amor, nesse escrita sem o menor comprometimento jornalístico acabei não pesquisando, mas chuto que a inspiração tenha vindo da maçã do amor, se não nos ingredientes e no processo, pelos menos estética e nominalmente. Sinto que traí a maça, a vontade de participar do assunto do momento fez minha cabeça e provei a nova fruta do amor, e claro, a febre não me pegou, odiei a dura camada exterior de açúcar, não da pra sentir o gosto de nada além disso. Minha namorada adorou por ter o mesmo gosto do clássico pirulito de morango em formato de coração, concordo plenamente, mas isso não foi o suficiente para mim, mais uma vez fiquei de fora, sem  Labubu, sem Bobbie Goods, pelo menos senti o gostinho de poder participar do momento.

    As trends e ondas de consumismo são tão inclusivas que entretém mesmo quem fica de fora delas, o gostinho que o morango do amor me deu não foi nada comparado a poder especular com propiedade de quem já provou, sobre o que acontecerá com esses morangos depois de algumas semanas ou meses, será que eles irão suplantar as maçãs e ao pensar em fruta do amor pensaremos em morango e não em maçã? Acho que não, talvez possam conviver bem, um nos circos e o outro nas confeitarias, para encerrar também com o Raul, “mas compreendi que além de dois, existem mais”. Pra reparar meu erro histórico estou disposto a provar a próxima maçã do amor que aparecer na minha frente, nem só de novidades vive uma pessoa, o que é tradicional deve ter seu lugar.

  • Cheiro de gato

    Tenho um gato peculiar, uma das características que mais gosto é a capacidade dele de absorver cheiros, às vezes da pra saber o que ele andou fazendo só dando um cheirinho no pescoço, mas isso também pode gerar uma confusão, já que nem todos os cheiros que ele carrega fazem sentido. Aqui está uma breve lista de cheiros já sentidos nele:

    Espinha de peixe pargo; líquido da cabeça de camarão; desinfetante Lysoform; tapete de banheiro; caixa de pizza; cheiro da casa da minha avó materna; amaciante Confort Concentrado; roupa que ficou molhada muito tempo e não secou direito; buquê de rosas depois que as flores já estão muito velhas; jornal; grama recém cortada; de gato filhote que cabe na palma da mão; de gato que foi castrado e ficou dez dias sem poder se lamber; de Shampoo para gatos, na única vez que ele tomou banho no petshop e foi muito elogiado por minha namorada; almofada de sofá; embalagem de vinil antigo comprado em sebo duvidoso; sacola plástica do mercado; frango assado, quando ele come escondido; lixo; maquiagem quando ele pula na pia do banheiro; shampoo anticaspa do Cristiano Ronaldo, de roupa de cama limpa, por mais que o mais frequente seja de roupa de cama suja; fumaça; bolsa térmica quente e fria; isopor; cerveja; cheiro de gato doido.

    A lista seguirá crescendo, anoto tudo em uma página de caderno e agora aqui. Apesar de ser comum ele aparecer com o cheiro de alguma outra coisa, na maioria das vezes ele tem um cheirinho próprio, que deve ser o mesmo de todos os gatos, mas pra mim é único — Outro dia numa dessas listas de perguntas para conhecer uma pessoa, tinha a opção de qual é seu cheiro favorito, coloquei que era o do meu gato, ainda mais com esse superpoder de absorção, tenho meu próprio adesivo raspe e cheire ambulante.

  • Trio de pífanos

    Era comecinho de tarde, logo depois do almoço, não sei a data do aniversário do meu tio, e o ano deveria ser algo como o comecinho da segunda metade da década de 90, no meio de uma cozinha movimentada perguntei se a festa que estava sendo organizada ia ter bolo, docinhos, balões e convidados. Meu tio garantiu sério de que teríamos tudo isso e mais um trio de pífanos como atração musical, fiquei animadíssimo, a festa ia ser maior do que eu imaginava, ver um trio de pífanos parecia algo maravilhoso, mesmo sem ter a menor ideia do que seria esse trio.

    Esperei impaciente a chegada da noite, o início da festa e apresentação dos pífanos, lembro de todos rirem da minha animação com um aniversário que não era o meu, mas das promessas feitas, só o bolo era verdade, não tiveram docinhos, balões muito menos, convidados só se você considerasse meus outros tios e tias que já moravam com minha avó, mas o principal pra mim foi a ausência do trio de pífanos, chorei inconsolável como poucas vezes na vida, chorei de decepcionado, chorei por me sentir infantil e não notar que todos estavam brincando comigo, chorei sem querer contar o motivo descabido pra tantas lágrimas, só meu mentiroso tio pareceu entender o que aconteceu.

    Minha proximidade com meu tio parou por aí, pouco depois desse aniversário o emprego da minha mãe fez com que nos mudássemos bastante e para cada vez mais longe da nossa até então numerosa família, aos poucos as visitas passaram a ser anuais e depois rarearam ainda mais, perdi todo o contato com meus tios e primos. Família passou a significar para mim apenas minha mãe e minha irmã.

    A distância e o pouco contato, não impediram que por anos, meu tio enviasse os mais diversos presentes que remetessem a um trio de pífanos, ainda guardo pequenos músicos feitos de papel machê, de barro e entalhados em madeira, tenho três flautas, um triângulo, um chapéu de infantil de cangaceiro, algumas amassados cordéis sobre conjuntos músicais famosos e meu primeiro disco de vinil é o da Bandinha de Pífano de Caruaru, mesmo que por muito tempo eu não tivesse uma vitrola para tocar os discos.

    Não sei muitas coisas sobre meu tio, mas minha mãe comenta que temos um humor parecido, diz que levamos nossas brincadeiras longe demais, que é difícil saber quando estamos falando sério e que rimos das nossas próprias piadas, mesmo que os outros não achem graça.

    É começo de tarde, logo depois do almoço, hoje faço 38 anos, minha namorada convidou nossos amigos, meu sogro, minha mãe, minha irmã e pela primeira vez em décadas, teremos a ilustre presença do meu tio, que calhou de fazer uma inesperada visita, na minha festa teremos bolo, docinhos, balões e um trio de pífanos.

  • Ventilador

    É abril e dizem que o calor está insuportável, 30º o dia inteiro e a sensação térmica é ainda pior. Não é o que sinto. Escuto (e leio) as reclamações junto com o constante som de algum dos meus 3 ventiladores, um no quarto, um no escritório e um para sala e cozinha. Certamente passo pelo menos 20h do meu dia sendo ventilado por algum dos 3.

    2 dos ventiladores são daqueles modelos menores, que precisam de um banco ou de uma cadeira para ficarem na altura em que estou sentado ou deitado.

    O que fica no escritório é um modelo mais compacto e pouco silencioso, ele permanece ligado a mesma quantidade de horas que eu trabalho, além da função inicial de diminuir o calor do ambiente, confesso que me afeiçoei ao barulho constante, funciona como um ruído branco e me ajuda a concentar bem mais do que qualquer música. O posicionamento é algo essencial, gosto que ele ventile a maior parte do meu tronco e pescoço, mas não gosto de sentir vento no ouvido, tenho medo que isso possa prejudicar minha audição.

    O ventilador do quarto é maior e mais silencioso que o do escritório, o posicionamento também é bastante diferente, o ângulo precisa estar direcionado para mim, mas não para minha namorada, ela não compartilha meu amor por ventiladores, o segredo aqui é colocar o vento em direção aos meus pés, isso já é o suficiente para que eu não acorde com calor durante a noite.

    O terceiro ventilador é um de modelo coluna e bastante forte, o vento dele não fica direcionado para uma parte do meu corpo, sua função é a de arejar o ambiente e dissipar o calor, por ser o mais barulhento e por os momentos de lazer terem menos espaço em nossas rotinas (infelizmente), esse é o ventilador que passa menos tempo em uso.

    Reservo um parágrafo para comentar sobre a função que torna o eixo dos ventiladores móvel e faz com que eles girem em um ângulo de aproximadamente 160 graus — ou, 3 segundos de felicidade e 9 segundos de espera e aagonia até que o vento volte para sua direção. Aqui em casa essa função só é usada quando temos visitas e não quero demonstrar egoísmo ou predileção a alguém do gupo.

    Por fim gostaria de enumerar as vantagens do ventilador em relação ao seu concorrente, o ar-condicionado: [1] é mais econômico, [2] é portátil , [3] permite que apenas uma pessoa do recinto usufrua de seu uso, função essencial para aqueles que se relacionam com pessoas friorentas. Há ainda as macro razões, estudos comprovam que ao amenizar o calor de forma imediatista, os aparelhos de ar-condicionado influenciam diretamente na emissão de gases que tornam nossa atmosfera cada vez mais quente, insustentável e principalmente insuportável.

    Na redação desse texto, não houve interesse por parte do autor em pesquisar possíveis malefícios do uso prolongado de ventiladores.

  • Planilha e Lista telefônica

    Minha avó criou sozinha todos os meus tios, e por sozinha, quero dizer que meu avô até estava por lá, mas nunca foi muito notado, tampouco ajudava em qualquer coisa. Essa ausência em casa fez com que cada filho ganhasse ou assumisse diferentes afazeres nos intermináveis pedidos feitos por minha avó.

    A lista de prendas familiares (e de tios e tias) é extensa. Com um exemplo, fica mais fácil entender: meu tio Mateus assumiu a tarefa de carpinteiro da família. Apesar do cargo, ele não tinha muita habilidade com madeira. Em seus muitos acidentes, acabou ganhando grande intimidade com o kit de primeiros socorros, função que passou a também desempenhar nos incidentes domésticos dominicais.

    Nem sempre é fácil entender como cada um assumiu sua função familiar. Minha tia Bebeta é versada em uma lista peculiar de atividades: é a responsável por trocar punhos de redes, consertar ventiladores, lavar os talheres, indicar livros, tirar fotos nos feriados, colar solados soltos e fazer as compotas de coco e manga – mas nunca a de caju. De caju, só a tia Eliza.

    Minha mãe, Estér, é a mais nova. Onze anos a separam do, até então, filho caçula. Por essa época, muitos dos serviços requisitados por minha avó já haviam sido preenchidos, então seu trabalho é um dos mais curiosos para quem não é da família. Em um caderninho que não sai da antiga mesa de telefone, minha mãe listou o nome de cada um dos irmãos e quais tarefas eles realizam para os outros familiares. Apesar de ser um caderninho de arame, seu apelido passou a ser Lista Telefônica, e de fato teve bem mais uso que seu concorrente das páginas amarelas.

    Quando os netos começaram a nascer, a Lista passou uma expansão. Para alegria da minha avó, os netos vieram cuidar de uma nova seara de serviços, muitos deles na inexplorada tecnologia. O crescimento familiar também foi propício para verdadeiros intercâmbios de aprendizado. Meu primo, filho do tio Mateus, não quis dar sequência aos afazeres e acidentes da carpintaria. Decidiu dedicar-se a levar para minha avó toda espécie de mudas de plantas que encontrasse na rua – golpe baixo que o garantiu como neto favorito.

    Já eu, decidi dar continuidade à Lista feita por mamãe. Fiquei responsável por atualizar as funções de cada membro da família, incluí os netos, suas habilidades e disponibilizei o link da Lista, agora em formato de uma planilha que está em constante mudança. Além de escrever, atuo também como a flautista dos domingos e, quinzenalmente, sou a manicure da família.