• Ás e asno

    Não lembro de quase nada, esqueço dias, horários, o prazo para pagar contas, o aniversário de amigos queridos, erro a letra das minhas músicas favoritas, acabo trocando em miúdos e misturo disco do Neruda com livro do Pixinguinha.

    No entanto, não esqueço que ontem vi um adesivo de carro com os dizeres: “Motorista normal: nem ás no volante, nem asno volante”, nunca tinha visto esse trocadilho, pesquisei na internet e descobri que ele é comum em algumas tirinhas, mas em forma de adesivo automotivo não achei referências.

    O motorista que ouviu esse trocadilho também não foi capaz de esquece-lo, além disso ele achou que essa descrição era excelente para definir sua habilidade ao volante, o motorista normal teve então que tirar as medidas do porta-malas do carro, ir até uma gráfica e mandar fazer um adesivo sob medida. Acho que antes disso, deve ter escutado boas reclamações sobre sua direção.

    O Ás me fez lembrar que joguei cartas muitas vezes, mas nunca consegui decorar os quatro naipes do baralho, para mim é difícil associar cada nome ao seu símbolo, e olha que provavelmente já fui exposto à essa informação centenas de vezes ao longo três décadas, mas bastou ter visto por cinco segundos o trocadilho do Ás e isso ficou indelével na memória.

    Penso muito em como funcionam nossas lembranças, às vezes me divirto fingindo que poderíamos trocar informações inúteis por conhecimento, dando sequência às analogias com cartas, eu adoraria descartar uma mão com nome de atores e atrizes de novelas dos anos 90 e trocar por algumas letras de música, hoje escolheria essa do Chico Buarque:

  • Passei a passar

    Passei a passar roupas, já não consigo sair de casa com roupas amassadas, mesmo que precise ir só ali ao lado resolver algo rapidinho, a camisa cheia de vincos me incomoda, preciso primeiro pegar o ferro, a tábua, o spray desamassador, tenho que fechar a porta para que o gato não queira atrapalhar e acabe queimado, o que era pra ser feito com pressa acaba demorando um pouco mais, mas pelo menos a camisa está engomada. Ah, tenho que lembrar de desligar o ferro, já aconteceu de ele passar um tempo a mais ligado sem passar.

    Não tenho a disciplina de tirar as roupas secas do varal e passá-las logo em seguida, a excessão são as camisas de linho, me vi obrigado a isso, usar o ferro uma só vez não era o suficiente para acabar com vincos, então passo duas vezes, uma quando a camisa sái do varal e outra quando vou sair de casa. Com as outras peças não tenho esse trabalho dobrado, apenas uma vez é o suficiente, já incluí na minha estimativa de tempo para sair de casa os minutos que levo nesse processo.

    Sem uma técnica específica, vou virando a roupa pela tábua até ficar feliz com o resultado, o que demora bastante, o apreço que sinto ao vestir uma camiseta aindaquentinha é inversamente proporcional a esse chato ritual, quase sinto falta da época que não ligava para isso, mas infelizmente ficaram no passado meus dias amassados.

  • Quando a gripe passar


    Faz pouco sentindo começar algo novo no trabalho às 16h30 de uma sexta, se a dieta tiver desandado numa quinta, o melhor é desistir e esperar a próxima segunda, quem  sabe seja o caso de esperar início do próximo mês, há inclusive os extremistas que renunciam ao ano no finalzinho de outubro, afinal, se tudo deu errado nos dez meses, não são os dois que restam que irão fazer alguma diferença.


    Infelizmente sofro desse mau, uma interseção de procrastinação e apego por datas com “número fechados “, sei que não faz sentido, mas segundas parecem datas mais propícias para o início de algo, dia primeiro e dia quinze também soam bem para um começo. Gostaria de não ser assim, já tentei mudar esse hábito em inúmeras segundas e dias primeiros, até mesmo a mágica segunda que caí no dia primeiro não foi suficiente pra romper esse ciclo.


    Então veio um gripe, foram três dias acamado, tempo suficiente para achar que eu nunca mais ficaria bom, foram horas insones pensando o quanto ter saúde é subestimado, só costumo pensar nisso quando estou passando muito mal. Fiz auto promessas e planos pra quando a gripe passase, mas calculei errado, eis que fiquei curado num sábado, dia 09 de agosto, véspera de feriado, a semana mais do que praticamente encerrada. Como vou ter forças pra começar uma dieta com a iminência de um churrasco no domingo?, ir para academia então é impossível, mesmo que quisesse (não é o caso) ela não estaria aberta, simplemente não parece certo começar algo assim.

    Deito na cama e sinto um pouquinho da febre voltar, achei que o fim da gripe tinha o potencial de ser uma virada de chave, um marco, o equivalente às 8h da manhã de uma segunda, seria memorável contar que mudei de vida e que as coisas passaram a melhorar depois que fiquei bom de uma gripe. Estava tudo planejado, mas não foi dessa vez, quem sabe na próxima eu consiga.

  • Maçã do amor, morango do amor e Raul Seixas

    Em 34 anos nunca comi uma maçã do amor, e olha que gosto de maçã, ela pode não ser a melhor fruta, mas é a melhor escolha pra o dia a dia. Maçãs jamais estão em falta no mercado, resistem bem ao período que ficam na geladeira e seu sabor é uma constante, nas palavras do Raul Seixas “porque quem gosta de maçã irá gostar de todas porque todas são iguais”. O caso fica mais grave, as maçãs do amor foram sempre associadas a contextos de felicidade extrema para uma criança, estavam a venda nos circos e parques de diversões, repetidamente estavam lindas, vermelhíssimas, por fim, ainda contam a vantagem de estarem gravadas em nosso imaginário coletivo, elas são presença constante nos filmes, mas a sensação que tenho, é a de que, apesar de tudo a seu favor, maçãs do amor não são tão consumidas, reitero que nunca provei, sequer tenho lembranças reais de alguém próximo ter comprado ou feito uma.

    Não sei a quantas semanas a moda está rolando, mas num curto período de tempo provei o morango do amor, nesse escrita sem o menor comprometimento jornalístico acabei não pesquisando, mas chuto que a inspiração tenha vindo da maçã do amor, se não nos ingredientes e no processo, pelos menos estética e nominalmente. Sinto que traí a maça, a vontade de participar do assunto do momento fez minha cabeça e provei a nova fruta do amor, e claro, a febre não me pegou, odiei a dura camada exterior de açúcar, não da pra sentir o gosto de nada além disso. Minha namorada adorou por ter o mesmo gosto do clássico pirulito de morango em formato de coração, concordo plenamente, mas isso não foi o suficiente para mim, mais uma vez fiquei de fora, sem  Labubu, sem Bobbie Goods, pelo menos senti o gostinho de poder participar do momento.

    As trends e ondas de consumismo são tão inclusivas que entretém mesmo quem fica de fora delas, o gostinho que o morango do amor me deu não foi nada comparado a poder especular com propiedade de quem já provou, sobre o que acontecerá com esses morangos depois de algumas semanas ou meses, será que eles irão suplantar as maçãs e ao pensar em fruta do amor pensaremos em morango e não em maçã? Acho que não, talvez possam conviver bem, um nos circos e o outro nas confeitarias, para encerrar também com o Raul, “mas compreendi que além de dois, existem mais”. Pra reparar meu erro histórico estou disposto a provar a próxima maçã do amor que aparecer na minha frente, nem só de novidades vive uma pessoa, o que é tradicional deve ter seu lugar.