Categoria: Ficção

  • Limites, limites.

    O jornal vai fechar, é o último dia da histórica redacão, a edição já está pronta e os que ainda estão nas mesas são os que não sabem o que fazer com suas noites, agora que o que os manteve ocupados por 40 anos acabou. O prêmio de melhor metáfora pra definir o que todos sentiam foi para o Afonsinho — Parece que vamos ter que parar a bola porque nossa mãe está chamando e o jantar vai ser sopa. De vez em quando até o novato emplaca uma boa.

    Todos na redação estão curiosos pra saber o que vai ser do Parreira e do Délio, agora eles não terão a desculpa do trabalho para passarem o dia juntos, os dois vivem em amigáveis turras, é impossível imaginá-los separados. O Parreira é/era o réporter de rua mais antigo do jornal, Délio o melhor fotojornalista, segundo o próprio seu maior trabalho era impedir sua dupla de mentir muito, ele estava lá para que o povo não precisasse ler o que estava escrito — Basta a foto.

    Em um incomum arroubo com as palavras Délio declarou que a saudade do jornal seria tanta, que era capaz de acabar numa igreja pela primeira vez, só para sujar as mãos no papel que agora ficaria para as orações, claro — Limites Délio, limites. declarou Parreira com seu conhecido bordão.

    O mais velho, o que não escrevia e o mais novo( mesmo que Afonsinho já estivesse trabalhando no jornal há 7 anos, o apelido de novato nunca o abandonou) foram os que ficaram para o apagar das luzes, os veteranos estavam claramente mais abalados, quase nocauteado Parreira murmurou algo sobre o crescimento dos blogs, foi surpreendido por um — Limites Parreira, limites, o golpe inesperado tinha vindo de Afonso, o que fez os três darem uma última gargalhada, era mesmo hora de fechar, até o novato estava ganhando intimidade com os jornalistas de verdade, reagiu Parreira. O trabalho estava feito, apagaram as luzes, mas deixaram a porta aberta.

  • Apelido

    Com 11 anos o então Daniel era um fanático torcedor do Clube de Regatas Vasco da Gama, para um menino pobre ir ao estádio era algo impossível, então seu conhecimento vinha dos programas de rádio e dos álbuns de figurinha não oficiais que ele conseguia comprar na porta do colégio. Para ser querido por todos no início da adolescência bastava jogar bola bem e Dani era o melhor das ruas do bairro, o menino era tão bom que até jogava com os mais velhos, o único da sua idade a conseguir esse feito. Dani não era de falar muito, mesmo assim no ínico de outubro já estava todo mundo sabendo que em poucos dias ele ganharia de aniversário uma camisa do Vasco, com número 10 atrás e tudo, geral estava feliz e na expectativa do presente.

    Para Dalva comprar o presente do filho era um sacrifício, com tanto trabalho e com o menino o dia inteiro jogando bola os dois conviviam pouco, apesar disso eram extremmante próximos, de noite os dois dividiam o radinho, primeiro escutavam um pouco sobre o Vasco, depois passavam paras as músicas, cada um cedia um pouco para deixar o outro contente. Dalva mal poderia esperar para ver o olhos do filho ao abrir a camisa do seu time, o dinheiro seria bem gasto, afinal o menino era tão bom, tão querido por todos.

    Nunca uma reação foi tomada de forma tão rápida, talvez os reflexos de jogar bola na rua tenham contribuído para lidar com o que aconteceu, ao rasgar o pacote a camisa alvo e negra estava lá, mas no lugar da cruz vermelha havia uma estrela branca. A mãe não percebeu o que para qualquer criança mimada seria um erro imperdoável, Dani não deu margem para dúvidas, sabia bem tudo que a mãe passava para fazê-lo feliz, o menino foi só sorrisos e vesiu a camisa imediatamente.

    Quando pisou na rua com o uniforme não havia como voltar atrás, foi logo anunciando que a partir de agora seu coração estava dividido, era torcedor do Vasco e do Botafogo, quem achasse ruim não precisava nem escolher para o mesmo time. Apesar da determinação do Dani não teve jeito, na data do seu décimo segundo aniversário ele ganhou o apelido que o acompanharia por toda vida, o Casaca. Obviamente vira-casaca era um apelido muito longo para ser usado na correria de um jogo, então em semanas ficou só Casaca mesmo, o menino não ligou muito, pelo menos ele continuava sendo convidado pra todos os jogos, nunca era o escolhido para ficar de fora, além do mais, ele era tão alucinado por futebol que passou a gostar de ter dois times pra torcer, mesmo seu caso sendo bastante raro e motivo de piadas.

    Dalva estranhou a nova alcunha do filho,mele desconversou rápido, disse que eram coisas da bola e que nem ligava pro apelido, ainda demorou alguns bons anos até a mãe notar em alguma TV que o uniforme do Vasco e o inseparável uniforme do seu filho não eram iguais.

    Até hoje o Casaca leva o apelido, nas suas mãos a história que podia ser amarga ganhou cores (preto e branco) alegre. Não foram poucas as mulheres que caíram de encanto pelo relato de um menino que ainda tão novo soube colocar sua mãe acima do futebol que ele tanto fala, essa foi uma enorme prova de amor, e se tinha feito algo assim pela mãe, poderia muito bem fazer novamente, dessa vez por uma namorada e futura esposa. Duro era encarar a rodada dupla do Brasileirão, nem todo mundo aguenta dois radinhos ligados simultaneamente.

  • Pé quente e pé frio

    Juntos os dois eram perfeitos, eram a inveja entre os casados e o sonho dos solteiros, em público Afrânio e Marcela trocavam sorrisos, elogios e gentilezas. A semelhança entre os dois era mesmo impressionante, pareciam ensaiados, se estavam em ambientes separados e eram perguntados sobre algo, defendiam as mesmas ideias, usavam quase as mesmas palavras.

    Mas entre quatro parede nem tudo são flores, o casal amava a fama que os precedia, durante o dia tudo corria as mil maravilhas, o problema surgia no apagar das luzes — Para ser mais exato no ligar do ventilador, Marcela sente muito calor e não consegue pegar no sono sem um ventinho, já Afrânio é friorento e odeia tudo sobre o vento, odiava o barulho e detestava a sensação em seu corpo. A conciliação noturna parece inegociável.

    Ao longo dos anos foram nove ventiladores das mais diferentes marcas e modelos. A cada nova tentativa o ventilador anterior era passado para algum parente da família (tia Vânia ficou com dois deles, o calor parece ser hereditário na família de Marcela), sempre com muita discrição para que a imagem do casal fosse mantida e a constante troca não despertasse suspeitas desnecessárias. O modelo mais silencioso foi o quinto a ser testado, esse ventilador precisou ser comprado duas vezes, já que ele já havia sido substituído por outros testes mal sucedidos.

    Além do barulho o vento em si era o grande obstáculo do casal, foram feitas várias experiência de distância e angulação, tudo para chegar no posicionamento e intensidade ideais. No fim, o que gerou menos desavenças foi virar o ventilador apenas para os pés de Marcela, mesmo assim o resultado não foi bom, Afrânio não dormia de frio, Marcela não fechava os olhos com tanto calor.

    As noites insones minaram os dias perfeitos do casal, depois de algum tempo a separação foi inevitável e chocou a todos. Quando alguém indiscreto pergunta sobre o que aconteceu, Afrânio costuma dizer que casamento é assim mesmo, tem que ser pé quente para dar certo. Já Marcela, culpa a má sorte e diz que foi pé frio no casamento.

  • Querido diário

    Querido diário, já faz algum tempo que nós estamos juntos, mas só agora consigo confessar, esse tratamento de “querido” não está funcionando para mim. Não te trato assim por ter tanta intimidade e apreço, pra falar a verdade isso tudo aconteceu por pura pressão social e falta de saber começar a escrever. Nos livros, filmes e em todas as referências pop é assim que os outros diários são tratados, isso era tudo que sabia, não tive forças para ser diferente.

    Tentei, e até gosto da nossa dinâmica, mas caso você esteja me escutando bem, já deve ter notado que eu tenho dificuldade com tratamentos carinhosos. Não é por mal, mas depois de um tempo algumas palavras soam estranhas, querido, querido,querido, querido, querido, querido, querido, querido, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, meu bem, meu bem, meu bem, meu bem, meu bem, meu bem, meu bem, meu bem, tudo vira brega chato. Acho que não sou tão melosa e grudenta, até na boca dos outros isso vai me irritando. Culparei meus pais, eles nunca foram disso, acho que nunca usaram vozinha pra falar comigo, nem quando fui bebê, péssima escolha — Agora estou nessa,me falta espontaneidade até com você, vou mesmo virar a velha dos gatos e morrer sozinha.

    Por favor não fique triste, pra usar outro clichê, tiramos essa pedra do caminho, acho que nossa relação pode até crescer depois que te contei mais esse segredo. Podemos tentar ter uma dinâmica mais original, nada de querido, passarei a usar apenas diário, aliás, aproveitando que estamos nessa DR, isso de eu só falar e você só escutar já deu né, é até meio sexista. Não dá ouvidos pra esse Lacan que está aí na prateleira do lado, eu quero mais opiniões suas, do jeito que está ficou muito chato. Vamos mudar ta ?

    E aí, o que acha?

  • Trio de pífanos

    Era comecinho de tarde, logo depois do almoço, não sei a data do aniversário do meu tio, e o ano deveria ser algo como o comecinho da segunda metade da década de 90, no meio de uma cozinha movimentada perguntei se a festa que estava sendo organizada ia ter bolo, docinhos, balões e convidados. Meu tio garantiu sério de que teríamos tudo isso e mais um trio de pífanos como atração musical, fiquei animadíssimo, a festa ia ser maior do que eu imaginava, ver um trio de pífanos parecia algo maravilhoso, mesmo sem ter a menor ideia do que seria esse trio.

    Esperei impaciente a chegada da noite, o início da festa e apresentação dos pífanos, lembro de todos rirem da minha animação com um aniversário que não era o meu, mas das promessas feitas, só o bolo era verdade, não tiveram docinhos, balões muito menos, convidados só se você considerasse meus outros tios e tias que já moravam com minha avó, mas o principal pra mim foi a ausência do trio de pífanos, chorei inconsolável como poucas vezes na vida, chorei de decepcionado, chorei por me sentir infantil e não notar que todos estavam brincando comigo, chorei sem querer contar o motivo descabido pra tantas lágrimas, só meu mentiroso tio pareceu entender o que aconteceu.

    Minha proximidade com meu tio parou por aí, pouco depois desse aniversário o emprego da minha mãe fez com que nos mudássemos bastante e para cada vez mais longe da nossa até então numerosa família, aos poucos as visitas passaram a ser anuais e depois rarearam ainda mais, perdi todo o contato com meus tios e primos. Família passou a significar para mim apenas minha mãe e minha irmã.

    A distância e o pouco contato, não impediram que por anos, meu tio enviasse os mais diversos presentes que remetessem a um trio de pífanos, ainda guardo pequenos músicos feitos de papel machê, de barro e entalhados em madeira, tenho três flautas, um triângulo, um chapéu de infantil de cangaceiro, algumas amassados cordéis sobre conjuntos músicais famosos e meu primeiro disco de vinil é o da Bandinha de Pífano de Caruaru, mesmo que por muito tempo eu não tivesse uma vitrola para tocar os discos.

    Não sei muitas coisas sobre meu tio, mas minha mãe comenta que temos um humor parecido, diz que levamos nossas brincadeiras longe demais, que é difícil saber quando estamos falando sério e que rimos das nossas próprias piadas, mesmo que os outros não achem graça.

    É começo de tarde, logo depois do almoço, hoje faço 38 anos, minha namorada convidou nossos amigos, meu sogro, minha mãe, minha irmã e pela primeira vez em décadas, teremos a ilustre presença do meu tio, que calhou de fazer uma inesperada visita, na minha festa teremos bolo, docinhos, balões e um trio de pífanos.

  • Planilha e Lista telefônica

    Minha avó criou sozinha todos os meus tios, e por sozinha, quero dizer que meu avô até estava por lá, mas nunca foi muito notado, tampouco ajudava em qualquer coisa. Essa ausência em casa fez com que cada filho ganhasse ou assumisse diferentes afazeres nos intermináveis pedidos feitos por minha avó.

    A lista de prendas familiares (e de tios e tias) é extensa. Com um exemplo, fica mais fácil entender: meu tio Mateus assumiu a tarefa de carpinteiro da família. Apesar do cargo, ele não tinha muita habilidade com madeira. Em seus muitos acidentes, acabou ganhando grande intimidade com o kit de primeiros socorros, função que passou a também desempenhar nos incidentes domésticos dominicais.

    Nem sempre é fácil entender como cada um assumiu sua função familiar. Minha tia Bebeta é versada em uma lista peculiar de atividades: é a responsável por trocar punhos de redes, consertar ventiladores, lavar os talheres, indicar livros, tirar fotos nos feriados, colar solados soltos e fazer as compotas de coco e manga – mas nunca a de caju. De caju, só a tia Eliza.

    Minha mãe, Estér, é a mais nova. Onze anos a separam do, até então, filho caçula. Por essa época, muitos dos serviços requisitados por minha avó já haviam sido preenchidos, então seu trabalho é um dos mais curiosos para quem não é da família. Em um caderninho que não sai da antiga mesa de telefone, minha mãe listou o nome de cada um dos irmãos e quais tarefas eles realizam para os outros familiares. Apesar de ser um caderninho de arame, seu apelido passou a ser Lista Telefônica, e de fato teve bem mais uso que seu concorrente das páginas amarelas.

    Quando os netos começaram a nascer, a Lista passou uma expansão. Para alegria da minha avó, os netos vieram cuidar de uma nova seara de serviços, muitos deles na inexplorada tecnologia. O crescimento familiar também foi propício para verdadeiros intercâmbios de aprendizado. Meu primo, filho do tio Mateus, não quis dar sequência aos afazeres e acidentes da carpintaria. Decidiu dedicar-se a levar para minha avó toda espécie de mudas de plantas que encontrasse na rua – golpe baixo que o garantiu como neto favorito.

    Já eu, decidi dar continuidade à Lista feita por mamãe. Fiquei responsável por atualizar as funções de cada membro da família, incluí os netos, suas habilidades e disponibilizei o link da Lista, agora em formato de uma planilha que está em constante mudança. Além de escrever, atuo também como a flautista dos domingos e, quinzenalmente, sou a manicure da família.

  • Palavra de vendedor

    — Bom dia doutor, vai uma dúzia de laranja aí?
    — Fica pra próxima, hoje não vai dar.
    — O Senhor tem certeza? Essas aqui estão especiais, são as últimas que tenho antes de pegar o rumo de casa, passei o dia guardando.
    — Hoje não amigo, muito obrigado.
    — Por nada doutor, assim é até melhor mesmo. Passei o dia nesse Sol pensando nessas benditas laranjas, agora é passar na venda, pegar um pãozinho com manteiga, não vai ter jantar melhor.
    — … bom, vendo assim fiquei foi com vontade mesmo, minha mãezinha costumava deixar pronto para o meu café justamente isso: pão com manteiga e suco de laranja. Está de quanto a dúzia?
    — Então doutor, tava de R$10, agora não ta mais né, não vejo a hora de tomar esse suco, vou indo pra casa que moro é longe.
    — É brincadeira?
    — O que?
    — As laranjas?
    — É nada, passei o dia pensando nelas…
    — Eu entendi, mas agora eu quero comprar!
    — Agora não da mais doutor.
    — Eu pago R$20!
    — Assim o senhor me ofende, não tem dinheiro que pague uma vontade não realizada.
    — É brincadeira mesmo né? E se eu tivesse comprado de primeira?
    — Aí o senhor ia tomar o suco da sua vida viu! Ia ter que vender né, palavra de vendedor é coisa séria.
    — … e você vende mais alguma coisa?
    — Se o senhor passa amanhã, tou vendendo umas mangas, o senhor gosta de manga?
    — De manga, manga não sou muito chegado.
    — Assim é até melhor, porque…
    — Vou levar duas mangas, já deixa reservado por favor.

  • A Fernanda não

    A escolha da escola da minha filha me trouxe muitos questionamentos. Sempre quis que ela crescesse em contato com os valores mais humanos e progressistas, então foi com encanto que li o programa pedagógico que propunha a participação ativa dos pais na realização das atividades. É verdade que eu não esperava que esses valores sociais fossem financeiramente tão custosos. Também a distância entre o pequeno sítio, que funciona como sede da escola, e nossa casa é bem maior do que eu gostaria. Mas tudo valeria a pena. Afinal, quantos pais podem participar tanto da vida escolar de suas crianças?

    Logo no primeiro mês letivo, o e-mail convite para a construção e manutenção do galinheiro foi a certeza de que tomei a decisão correta. A proposta era que construíssemos um lar para 20 galinhas, que, ao longo do ano, forneceriam ovos e, eventualmente, serviriam como insumo para a refeição das crianças. O objetivo maior do galinheiro era ensinar às crianças sobre a origem da nossa alimentação. Toda a teoria de uma cadeia alimentar seria colocada em prática com esse projeto. A ideia foi aclamada pelo grupo de pais; mesmo os veganos e vegetarianos apoiaram. É assim que queremos criar nossas crianças: plenamente conscientes das consequências das atitudes que tomamos.

    Por não ter habilidades motoras tão desenvolvidas, fiquei no grupo responsável por ajudar as crianças a alimentar e cuidar das galinhas. E aqui começa o meu aprendizado com essa história. Claro que, com o distanciamento próprio aos leitores, é fácil apontar os meus erros e como eles, obviamente, iriam cobrar um preço alto. Foi um engano grave deixar a minha filha batizar uma das galinhas com o próprio nome, mas o carisma da Fernanda galinha era inegável. Eu mesmo fui rendido pela situação e, mesmo após todos os ocorridos, não me arrependo das minhas escolhas. Fernanda era claramente diferente das outras: mais inteligente, mais “humana”. Seu comportamento a separava das demais. O elo entre ela e minha filha era único. Logo nós três concordamos que seria impossível que ela acabasse no fundo de uma panela.

    Tentei seguir os caminhos óbvios. Conversei com o grupo de pais sobre o diferente destino de Fernanda. Não seria melhor que ela fosse poupada? Eu e minha filha tomaríamos todos os cuidados necessários. Fui rechaçado pela maioria. Apenas o pequeno núcleo vegano e vegetariano tomou meu partido. Os votos foram insuficientes. O argumento da maioria era de que eu estava querendo prejudicar o experimento. Não era esse o objetivo. Nossas crianças – e, pelo visto, até mesmo eu – tínhamos que aprender a lidar com a morte que se aproximava em formato de canja.

    Não tive escolhas. Fiz o que qualquer pai de uma menina que compartilha seu nome com uma galinha faria: coloquei as Fernandas no carro e fugimos. Tudo de caso pensado. Agimos na sexta-feira para ter tempo de pensar em uma logística que funcionasse. Ainda seria preciso convencer minha esposa, que, até então, só havia participado da etapa de construção do galinheiro. Foi apenas na segunda-feira que virei piada no grupo de WhatsApp. Nossa fuga foi descoberta, mas gerou tanta incredulidade e piadas que sanções administrativas não foram tomadas a respeito. Minha pena foi ter que lidar com a Fernanda galinha. Nosso pequeno grupo de pais progressistas soube fazer bom uso do humor.

    De fato, não foi fácil. Criar uma galinha na cidade só é mais fácil do que educar adequadamente uma criança. Eis o desfecho da nossa fuga: após extensos questionamentos, consegui levar Fernanda galinha para a propriedade de um amigo. Ele me garantiu que lá ela vive plenamente feliz, não como essas galinhas das caixas de ovos. De fato, visitamos ela com certa frequência. Fernanda filha garante que dá para ver nos seus olhos galináceos que sua xará é grata pela mudança. O carisma da galinha foi tão grande que se prolongou para toda a sua espécie. Já são 22 dias que não comemos animais em nosso apartamento. A lição aprendida na escola foi até melhor do que previ, afinal, quantos pais podem participar da fuga de uma galhina e acabar tornando a família vegetariana no processo?

  • História perna de pau

    É comum entre os circenses ter uma história sobre como foram parar sob as lonas, e minha favorita é, claro, a do meu pai. Ainda pequeno, numa pobre cidade do interior, ver o circo chegar à praça principal foi o maior acontecimento de sua infância difícil. Cresci escutando que sua decisão de se juntar a uma trupe errante aconteceu quando um perna de pau deu uma passada sobre seu corpo e continuou rápido e dançante na sua marcha de gigante para divulgar as atrações da noite de estreia. A chegada do perna de pau foi um verdadeiro encanto em sua vida. Por certo, além de caminhar nas alturas, o circense deveria ser também mágico, pois até então meu pai nunca tinha imaginado que pudesse ser tão grande e ir tão longe de casa.

    Já trabalhando em circos há algum tempo, meu pai conheceu minha mãe. Novamente gostando de enfeitar sua vida, conta que o encontro dos dois só foi possível graças à altura que a perna de pau lhe deu. Minha mãe, além de filha do dono do circo, fazia dupla de trapezista com meu tio e passava mais tempo ensaiando nas alturas da plataforma de salto do que no nível do chão. Não demorou para formarem o mais lindo casal circense de que se tem notícia. E, como no picadeiro cada um tem que se desdobrar para cuidar de várias atrações, logo formaram uma dupla de malabaristas: o Pé sem Chão e a Cabeça de Vento. A sintonia era tão boa que nunca erraram um truque, só ensaiavam na vida real!

    Nasci filho de perna de pau malabarista e trapezista malabarista, sou sobrinho de um trapezista equilibrista e neto de palhaços atiradores de faca donos de circo. Para garantir que eu crescesse encantado pelo picadeiro, meu pai repetiu o truque do velho perna de pau: abria as pernas, e eu, criança, passava por debaixo. A cada passada longa, ele fingia tropeçar e fingia novamente tentar se livrar de mim. Esse foi meu primeiro número.

    No circo aprendi a acreditar repetidamente no mesmo velho truque. E, como todo mundo no circo faz duas coisas, decidi ser palhaço e contador de nossas histórias.

    Venham!

  • Disque 130

    Durante 32 anos, meu avô usou um uniforme autoimposto: seu relógio de cronógrafo branco e pulseira de couro preto, calças de alfaiataria em algodão e sapatos igualmente pretos e sempre engraxados. O cinto era o mesmo do dia do seu casamento, e ele se orgulhava de nunca ter precisado ajustar sequer um furo ao longo das décadas. De segunda a quinta, a camisa era branca, com mangas curtas; na sexta-feira e em datas com algum significado especial, as camisas escolhidas eram de manga longa, uma formalidade própria e em total desacordo com o clima do Nordeste.

    Sua função na repartição era a de revisor de documentos, mas com uma responsabilidade extra: o disque 130. Bastava à qualquer pessoa interessada em saber a hora correta ligar para esse número e seria prontamente atendida por meu avô. Nos almoços de domingo, ele contava feliz sobre ter implementado uma inovação: nos seus atendimentos, passou a informar horas, minutos e segundos.

    No meu aniversário de 16 anos, ganhei de presente seu antigo relógio, o mesmo que, durante anos, foi o responsável por padronizar o horário para os interessados em precisão. Meu avô lamentou que a máquina do relógio já não tivesse mais o mesmo funcionamento. Infelizmente, ele constatou um atraso de alguns milésimos de segundo por dia, o que poderia acarretar um sério problema com o passar das semanas. Apesar de o presente já não ser mais exato, meu avô desejou que o relógio me servisse como uma recordação do tempo que passamos juntos.

    Sou grato por carregar no pulso a história do meu avô. Tenho certeza de que ele ficaria feliz em saber que, após algum esforço, o relógio voltou a funcionar precisamente. E, para aqueles que me perguntam, digo de bom grado as horas com precisão de minutos e segundos, sigo a tradição da nossa família.