Categoria: Crônica

  • História perna de pau

    É comum entre os circenses ter uma história sobre como foram parar sob as lonas, e minha favorita é, claro, a do meu pai. Ainda pequeno, numa pobre cidade do interior, ver o circo chegar à praça principal foi o maior acontecimento de sua infância difícil. Cresci escutando que sua decisão de se juntar a uma trupe errante aconteceu quando um perna de pau deu uma passada sobre seu corpo e continuou rápido e dançante na sua marcha de gigante para divulgar as atrações da noite de estreia. A chegada do perna de pau foi um verdadeiro encanto em sua vida. Por certo, além de caminhar nas alturas, o circense deveria ser também mágico, pois até então meu pai nunca tinha imaginado que pudesse ser tão grande e ir tão longe de casa.

    Já trabalhando em circos há algum tempo, meu pai conheceu minha mãe. Novamente gostando de enfeitar sua vida, conta que o encontro dos dois só foi possível graças à altura que a perna de pau lhe deu. Minha mãe, além de filha do dono do circo, fazia dupla de trapezista com meu tio e passava mais tempo ensaiando nas alturas da plataforma de salto do que no nível do chão. Não demorou para formarem o mais lindo casal circense de que se tem notícia. E, como no picadeiro cada um tem que se desdobrar para cuidar de várias atrações, logo formaram uma dupla de malabaristas: o Pé sem Chão e a Cabeça de Vento. A sintonia era tão boa que nunca erraram um truque, só ensaiavam na vida real!

    Nasci filho de perna de pau malabarista e trapezista malabarista, sou sobrinho de um trapezista equilibrista e neto de palhaços atiradores de faca donos de circo. Para garantir que eu crescesse encantado pelo picadeiro, meu pai repetiu o truque do velho perna de pau: abria as pernas, e eu, criança, passava por debaixo. A cada passada longa, ele fingia tropeçar e fingia novamente tentar se livrar de mim. Esse foi meu primeiro número.

    No circo aprendi a acreditar repetidamente no mesmo velho truque. E, como todo mundo no circo faz duas coisas, decidi ser palhaço e contador de nossas histórias.

    Venham!

  • Disque 130

    Durante 32 anos, meu avô usou um uniforme autoimposto: seu relógio de cronógrafo branco e pulseira de couro preto, calças de alfaiataria em algodão e sapatos igualmente pretos e sempre engraxados. O cinto era o mesmo do dia do seu casamento, e ele se orgulhava de nunca ter precisado ajustar sequer um furo ao longo das décadas. De segunda a quinta, a camisa era branca, com mangas curtas; na sexta-feira e em datas com algum significado especial, as camisas escolhidas eram de manga longa, uma formalidade própria e em total desacordo com o clima do Nordeste.

    Sua função na repartição era a de revisor de documentos, mas com uma responsabilidade extra: o disque 130. Bastava à qualquer pessoa interessada em saber a hora correta ligar para esse número e seria prontamente atendida por meu avô. Nos almoços de domingo, ele contava feliz sobre ter implementado uma inovação: nos seus atendimentos, passou a informar horas, minutos e segundos.

    No meu aniversário de 16 anos, ganhei de presente seu antigo relógio, o mesmo que, durante anos, foi o responsável por padronizar o horário para os interessados em precisão. Meu avô lamentou que a máquina do relógio já não tivesse mais o mesmo funcionamento. Infelizmente, ele constatou um atraso de alguns milésimos de segundo por dia, o que poderia acarretar um sério problema com o passar das semanas. Apesar de o presente já não ser mais exato, meu avô desejou que o relógio me servisse como uma recordação do tempo que passamos juntos.

    Sou grato por carregar no pulso a história do meu avô. Tenho certeza de que ele ficaria feliz em saber que, após algum esforço, o relógio voltou a funcionar precisamente. E, para aqueles que me perguntam, digo de bom grado as horas com precisão de minutos e segundos, sigo a tradição da nossa família.