Categoria: Crônica

  • Trio de pífanos

    Era comecinho de tarde, logo depois do almoço, não sei a data do aniversário do meu tio, e o ano deveria ser algo como o comecinho da segunda metade da década de 90, no meio de uma cozinha movimentada perguntei se a festa que estava sendo organizada ia ter bolo, docinhos, balões e convidados. Meu tio garantiu sério de que teríamos tudo isso e mais um trio de pífanos como atração musical, fiquei animadíssimo, a festa ia ser maior do que eu imaginava, ver um trio de pífanos parecia algo maravilhoso, mesmo sem ter a menor ideia do que seria esse trio.

    Esperei impaciente a chegada da noite, o início da festa e apresentação dos pífanos, lembro de todos rirem da minha animação com um aniversário que não era o meu, mas das promessas feitas, só o bolo era verdade, não tiveram docinhos, balões muito menos, convidados só se você considerasse meus outros tios e tias que já moravam com minha avó, mas o principal pra mim foi a ausência do trio de pífanos, chorei inconsolável como poucas vezes na vida, chorei de decepcionado, chorei por me sentir infantil e não notar que todos estavam brincando comigo, chorei sem querer contar o motivo descabido pra tantas lágrimas, só meu mentiroso tio pareceu entender o que aconteceu.

    Minha proximidade com meu tio parou por aí, pouco depois desse aniversário o emprego da minha mãe fez com que nos mudássemos bastante e para cada vez mais longe da nossa até então numerosa família, aos poucos as visitas passaram a ser anuais e depois rarearam ainda mais, perdi todo o contato com meus tios e primos. Família passou a significar para mim apenas minha mãe e minha irmã.

    A distância e o pouco contato, não impediram que por anos, meu tio enviasse os mais diversos presentes que remetessem a um trio de pífanos, ainda guardo pequenos músicos feitos de papel machê, de barro e entalhados em madeira, tenho três flautas, um triângulo, um chapéu de infantil de cangaceiro, algumas amassados cordéis sobre conjuntos músicais famosos e meu primeiro disco de vinil é o da Bandinha de Pífano de Caruaru, mesmo que por muito tempo eu não tivesse uma vitrola para tocar os discos.

    Não sei muitas coisas sobre meu tio, mas minha mãe comenta que temos um humor parecido, diz que levamos nossas brincadeiras longe demais, que é difícil saber quando estamos falando sério e que rimos das nossas próprias piadas, mesmo que os outros não achem graça.

    É começo de tarde, logo depois do almoço, hoje faço 38 anos, minha namorada convidou nossos amigos, meu sogro, minha mãe, minha irmã e pela primeira vez em décadas, teremos a ilustre presença do meu tio, que calhou de fazer uma inesperada visita, na minha festa teremos bolo, docinhos, balões e um trio de pífanos.

  • Ventilador

    É abril e dizem que o calor está insuportável, 30º o dia inteiro e a sensação térmica é ainda pior. Não é o que sinto. Escuto (e leio) as reclamações junto com o constante som de algum dos meus 3 ventiladores, um no quarto, um no escritório e um para sala e cozinha. Certamente passo pelo menos 20h do meu dia sendo ventilado por algum dos 3.

    2 dos ventiladores são daqueles modelos menores, que precisam de um banco ou de uma cadeira para ficarem na altura em que estou sentado ou deitado.

    O que fica no escritório é um modelo mais compacto e pouco silencioso, ele permanece ligado a mesma quantidade de horas que eu trabalho, além da função inicial de diminuir o calor do ambiente, confesso que me afeiçoei ao barulho constante, funciona como um ruído branco e me ajuda a concentar bem mais do que qualquer música. O posicionamento é algo essencial, gosto que ele ventile a maior parte do meu tronco e pescoço, mas não gosto de sentir vento no ouvido, tenho medo que isso possa prejudicar minha audição.

    O ventilador do quarto é maior e mais silencioso que o do escritório, o posicionamento também é bastante diferente, o ângulo precisa estar direcionado para mim, mas não para minha namorada, ela não compartilha meu amor por ventiladores, o segredo aqui é colocar o vento em direção aos meus pés, isso já é o suficiente para que eu não acorde com calor durante a noite.

    O terceiro ventilador é um de modelo coluna e bastante forte, o vento dele não fica direcionado para uma parte do meu corpo, sua função é a de arejar o ambiente e dissipar o calor, por ser o mais barulhento e por os momentos de lazer terem menos espaço em nossas rotinas (infelizmente), esse é o ventilador que passa menos tempo em uso.

    Reservo um parágrafo para comentar sobre a função que torna o eixo dos ventiladores móvel e faz com que eles girem em um ângulo de aproximadamente 160 graus — ou, 3 segundos de felicidade e 9 segundos de espera e aagonia até que o vento volte para sua direção. Aqui em casa essa função só é usada quando temos visitas e não quero demonstrar egoísmo ou predileção a alguém do gupo.

    Por fim gostaria de enumerar as vantagens do ventilador em relação ao seu concorrente, o ar-condicionado: [1] é mais econômico, [2] é portátil , [3] permite que apenas uma pessoa do recinto usufrua de seu uso, função essencial para aqueles que se relacionam com pessoas friorentas. Há ainda as macro razões, estudos comprovam que ao amenizar o calor de forma imediatista, os aparelhos de ar-condicionado influenciam diretamente na emissão de gases que tornam nossa atmosfera cada vez mais quente, insustentável e principalmente insuportável.

    Na redação desse texto, não houve interesse por parte do autor em pesquisar possíveis malefícios do uso prolongado de ventiladores.

  • Planilha e Lista telefônica

    Minha avó criou sozinha todos os meus tios, e por sozinha, quero dizer que meu avô até estava por lá, mas nunca foi muito notado, tampouco ajudava em qualquer coisa. Essa ausência em casa fez com que cada filho ganhasse ou assumisse diferentes afazeres nos intermináveis pedidos feitos por minha avó.

    A lista de prendas familiares (e de tios e tias) é extensa. Com um exemplo, fica mais fácil entender: meu tio Mateus assumiu a tarefa de carpinteiro da família. Apesar do cargo, ele não tinha muita habilidade com madeira. Em seus muitos acidentes, acabou ganhando grande intimidade com o kit de primeiros socorros, função que passou a também desempenhar nos incidentes domésticos dominicais.

    Nem sempre é fácil entender como cada um assumiu sua função familiar. Minha tia Bebeta é versada em uma lista peculiar de atividades: é a responsável por trocar punhos de redes, consertar ventiladores, lavar os talheres, indicar livros, tirar fotos nos feriados, colar solados soltos e fazer as compotas de coco e manga – mas nunca a de caju. De caju, só a tia Eliza.

    Minha mãe, Estér, é a mais nova. Onze anos a separam do, até então, filho caçula. Por essa época, muitos dos serviços requisitados por minha avó já haviam sido preenchidos, então seu trabalho é um dos mais curiosos para quem não é da família. Em um caderninho que não sai da antiga mesa de telefone, minha mãe listou o nome de cada um dos irmãos e quais tarefas eles realizam para os outros familiares. Apesar de ser um caderninho de arame, seu apelido passou a ser Lista Telefônica, e de fato teve bem mais uso que seu concorrente das páginas amarelas.

    Quando os netos começaram a nascer, a Lista passou uma expansão. Para alegria da minha avó, os netos vieram cuidar de uma nova seara de serviços, muitos deles na inexplorada tecnologia. O crescimento familiar também foi propício para verdadeiros intercâmbios de aprendizado. Meu primo, filho do tio Mateus, não quis dar sequência aos afazeres e acidentes da carpintaria. Decidiu dedicar-se a levar para minha avó toda espécie de mudas de plantas que encontrasse na rua – golpe baixo que o garantiu como neto favorito.

    Já eu, decidi dar continuidade à Lista feita por mamãe. Fiquei responsável por atualizar as funções de cada membro da família, incluí os netos, suas habilidades e disponibilizei o link da Lista, agora em formato de uma planilha que está em constante mudança. Além de escrever, atuo também como a flautista dos domingos e, quinzenalmente, sou a manicure da família.

  • Gato bebendo água e vaga no estacionamento

    Ter um gato me trouxe felicidade e a constante preocupação de ele não beber água suficiente. Gatos são conhecidos por seus problemas renais na velhice, então decidi que, desde cedo, a hidratação seria uma prioridade em nosso apartamento. Tentei usar uma fonte, mas meu gato preferiu o consumo de água parada. Por isso, espalhei diversos potes de vidro por todos os cômodos, mesmo assim, ele só bebe em uma única tigela, que fica no corredor entre a sala, o quarto e o escritório.

    Passei a prestar atenção no gato bebendo água. Infelizmente, isso não acontece muitas vezes durante o dia, em média, são três vezes, cada uma dura uns 43 segundos. Paro tudo o que estou fazendo, fico imóvel e em silêncio assistindo o momento, fico inexplicavelmente feliz, não é raro ser um dos melhores momentos do meu dia.

    Estudo e trabalho em casa. Infelizmente, meu convívio social está bem reduzido e, quando tenho a chance de contar os grandes acontecimentos dos meus dias, eles acabam não sendo tão grandes assim. Exemplo de grandes momentos recentes foram: ter acertado todas as questões sobre o uso dos “porquês”, o dia em que o gato bebeu água quatro vezes e a vaga maravilhosa que consegui ao estacionar no shopping.

    Na hora, não tenho noção de como os assuntos saem da proporção razoável. Quando percebo, já estou falando sobre a mini máquina do tempo que meu gato gera ao beber água e que faz com que tudo ao redor pare, ou sobre como aquela vaga é provavelmente uma das melhores do shopping inteiro — melhor do que isso, só aqueles carros promocionais que ficam do lado de dentro.

    Penso em documentar tudo. Que tal uma planilha da hidratação? Ou o blog melhoresvagas.wordpress.com? O pior é que sou incentivado pela minha namorada. Demora um pouco até eu me acalmar e as coisas voltarem ao normal. Fico calado, penso no tempo entre o carro e o shopping: foram só uns 40 segundos, igual ao gato bebendo água, espero que ele esteja hidratado hoje.

  • Palavra de vendedor

    — Bom dia doutor, vai uma dúzia de laranja aí?
    — Fica pra próxima, hoje não vai dar.
    — O Senhor tem certeza? Essas aqui estão especiais, são as últimas que tenho antes de pegar o rumo de casa, passei o dia guardando.
    — Hoje não amigo, muito obrigado.
    — Por nada doutor, assim é até melhor mesmo. Passei o dia nesse Sol pensando nessas benditas laranjas, agora é passar na venda, pegar um pãozinho com manteiga, não vai ter jantar melhor.
    — … bom, vendo assim fiquei foi com vontade mesmo, minha mãezinha costumava deixar pronto para o meu café justamente isso: pão com manteiga e suco de laranja. Está de quanto a dúzia?
    — Então doutor, tava de R$10, agora não ta mais né, não vejo a hora de tomar esse suco, vou indo pra casa que moro é longe.
    — É brincadeira?
    — O que?
    — As laranjas?
    — É nada, passei o dia pensando nelas…
    — Eu entendi, mas agora eu quero comprar!
    — Agora não da mais doutor.
    — Eu pago R$20!
    — Assim o senhor me ofende, não tem dinheiro que pague uma vontade não realizada.
    — É brincadeira mesmo né? E se eu tivesse comprado de primeira?
    — Aí o senhor ia tomar o suco da sua vida viu! Ia ter que vender né, palavra de vendedor é coisa séria.
    — … e você vende mais alguma coisa?
    — Se o senhor passa amanhã, tou vendendo umas mangas, o senhor gosta de manga?
    — De manga, manga não sou muito chegado.
    — Assim é até melhor, porque…
    — Vou levar duas mangas, já deixa reservado por favor.

  • A Fernanda não

    A escolha da escola da minha filha me trouxe muitos questionamentos. Sempre quis que ela crescesse em contato com os valores mais humanos e progressistas, então foi com encanto que li o programa pedagógico que propunha a participação ativa dos pais na realização das atividades. É verdade que eu não esperava que esses valores sociais fossem financeiramente tão custosos. Também a distância entre o pequeno sítio, que funciona como sede da escola, e nossa casa é bem maior do que eu gostaria. Mas tudo valeria a pena. Afinal, quantos pais podem participar tanto da vida escolar de suas crianças?

    Logo no primeiro mês letivo, o e-mail convite para a construção e manutenção do galinheiro foi a certeza de que tomei a decisão correta. A proposta era que construíssemos um lar para 20 galinhas, que, ao longo do ano, forneceriam ovos e, eventualmente, serviriam como insumo para a refeição das crianças. O objetivo maior do galinheiro era ensinar às crianças sobre a origem da nossa alimentação. Toda a teoria de uma cadeia alimentar seria colocada em prática com esse projeto. A ideia foi aclamada pelo grupo de pais; mesmo os veganos e vegetarianos apoiaram. É assim que queremos criar nossas crianças: plenamente conscientes das consequências das atitudes que tomamos.

    Por não ter habilidades motoras tão desenvolvidas, fiquei no grupo responsável por ajudar as crianças a alimentar e cuidar das galinhas. E aqui começa o meu aprendizado com essa história. Claro que, com o distanciamento próprio aos leitores, é fácil apontar os meus erros e como eles, obviamente, iriam cobrar um preço alto. Foi um engano grave deixar a minha filha batizar uma das galinhas com o próprio nome, mas o carisma da Fernanda galinha era inegável. Eu mesmo fui rendido pela situação e, mesmo após todos os ocorridos, não me arrependo das minhas escolhas. Fernanda era claramente diferente das outras: mais inteligente, mais “humana”. Seu comportamento a separava das demais. O elo entre ela e minha filha era único. Logo nós três concordamos que seria impossível que ela acabasse no fundo de uma panela.

    Tentei seguir os caminhos óbvios. Conversei com o grupo de pais sobre o diferente destino de Fernanda. Não seria melhor que ela fosse poupada? Eu e minha filha tomaríamos todos os cuidados necessários. Fui rechaçado pela maioria. Apenas o pequeno núcleo vegano e vegetariano tomou meu partido. Os votos foram insuficientes. O argumento da maioria era de que eu estava querendo prejudicar o experimento. Não era esse o objetivo. Nossas crianças – e, pelo visto, até mesmo eu – tínhamos que aprender a lidar com a morte que se aproximava em formato de canja.

    Não tive escolhas. Fiz o que qualquer pai de uma menina que compartilha seu nome com uma galinha faria: coloquei as Fernandas no carro e fugimos. Tudo de caso pensado. Agimos na sexta-feira para ter tempo de pensar em uma logística que funcionasse. Ainda seria preciso convencer minha esposa, que, até então, só havia participado da etapa de construção do galinheiro. Foi apenas na segunda-feira que virei piada no grupo de WhatsApp. Nossa fuga foi descoberta, mas gerou tanta incredulidade e piadas que sanções administrativas não foram tomadas a respeito. Minha pena foi ter que lidar com a Fernanda galinha. Nosso pequeno grupo de pais progressistas soube fazer bom uso do humor.

    De fato, não foi fácil. Criar uma galinha na cidade só é mais fácil do que educar adequadamente uma criança. Eis o desfecho da nossa fuga: após extensos questionamentos, consegui levar Fernanda galinha para a propriedade de um amigo. Ele me garantiu que lá ela vive plenamente feliz, não como essas galinhas das caixas de ovos. De fato, visitamos ela com certa frequência. Fernanda filha garante que dá para ver nos seus olhos galináceos que sua xará é grata pela mudança. O carisma da galinha foi tão grande que se prolongou para toda a sua espécie. Já são 22 dias que não comemos animais em nosso apartamento. A lição aprendida na escola foi até melhor do que previ, afinal, quantos pais podem participar da fuga de uma galhina e acabar tornando a família vegetariana no processo?

  • Lençol, ficar velho e camisas de futebol

    Meu lençol favorito não tem 300 fios, ele é de quando eu não ligava para a quantidade de fios nem para a origem do algodão. Ainda assim, ele é o mais macio e acolhedor. Abrir o guarda-roupa e saber que ele está limpo e disponível para algumas noites de uso é uma pequena alegria na vida

    Suas cores já estão bem desbotadas, está cada vez mais claro, mas ainda dá para notar que ele já teve listras horizontais verde claro e brancas. O tamanho é o de solteiro, e as costuras já estão tão gastas que começaram a rasgar. Como me mexo muito durante o sono, a cada noite ele fica mais desgastado.

    Não faço ideia de como ele chegou à minha vida, provavelmente foi comprado por minha mãe, e foi só recentemente que ganhou o status de lençol favorito. Juntos, já passamos por quatro casas: em duas delas morei com meus pais, em uma morei sozinho e, na última, moro com minha namorada. Ele já foi dividido com dois gatos: a gatinha criada por minha mãe e o primeiro gatinho pelo qual sou integralmente responsável e apaixonado.

    Foram as centenas de noites dormidas, e não a centena de fios, que fizeram com que o lençol ficasse tão confortável. Poucas coisas têm sido legais no processo de ver o tempo passar tão rápido e eu envelhecendo mais cedo do que sinto que deveria, mas olhar um objeto e perceber que ele já faz parte da sua vida há dez anos é assustador e familiar.

    Foi enrolado no lençol que pensei no verdadeiro terror que deve ser para um jogador de futebol ter que usar uma camisa nova a cada partida. Imagina não poder usar algo por tempo suficiente para que isso fique um pouco desgastado e passe, aos poucos, a ter as formas do seu corpo.

    Tenho verdadeiro pavor de tecidos novos demais, e é por não querer essa troca constante de uniforme fictício que decidi, aos 34 anos, me aposentar de uma fictícia carreira tardia no futebol. Só por esse motivo mesmo, não por eu estar envelhecendo.

  • História perna de pau

    É comum entre os circenses ter uma história sobre como foram parar sob as lonas, e minha favorita é, claro, a do meu pai. Ainda pequeno, numa pobre cidade do interior, ver o circo chegar à praça principal foi o maior acontecimento de sua infância difícil. Cresci escutando que sua decisão de se juntar a uma trupe errante aconteceu quando um perna de pau deu uma passada sobre seu corpo e continuou rápido e dançante na sua marcha de gigante para divulgar as atrações da noite de estreia. A chegada do perna de pau foi um verdadeiro encanto em sua vida. Por certo, além de caminhar nas alturas, o circense deveria ser também mágico, pois até então meu pai nunca tinha imaginado que pudesse ser tão grande e ir tão longe de casa.

    Já trabalhando em circos há algum tempo, meu pai conheceu minha mãe. Novamente gostando de enfeitar sua vida, conta que o encontro dos dois só foi possível graças à altura que a perna de pau lhe deu. Minha mãe, além de filha do dono do circo, fazia dupla de trapezista com meu tio e passava mais tempo ensaiando nas alturas da plataforma de salto do que no nível do chão. Não demorou para formarem o mais lindo casal circense de que se tem notícia. E, como no picadeiro cada um tem que se desdobrar para cuidar de várias atrações, logo formaram uma dupla de malabaristas: o Pé sem Chão e a Cabeça de Vento. A sintonia era tão boa que nunca erraram um truque, só ensaiavam na vida real!

    Nasci filho de perna de pau malabarista e trapezista malabarista, sou sobrinho de um trapezista equilibrista e neto de palhaços atiradores de faca donos de circo. Para garantir que eu crescesse encantado pelo picadeiro, meu pai repetiu o truque do velho perna de pau: abria as pernas, e eu, criança, passava por debaixo. A cada passada longa, ele fingia tropeçar e fingia novamente tentar se livrar de mim. Esse foi meu primeiro número.

    No circo aprendi a acreditar repetidamente no mesmo velho truque. E, como todo mundo no circo faz duas coisas, decidi ser palhaço e contador de nossas histórias.

    Venham!

  • Disque 130

    Durante 32 anos, meu avô usou um uniforme autoimposto: seu relógio de cronógrafo branco e pulseira de couro preto, calças de alfaiataria em algodão e sapatos igualmente pretos e sempre engraxados. O cinto era o mesmo do dia do seu casamento, e ele se orgulhava de nunca ter precisado ajustar sequer um furo ao longo das décadas. De segunda a quinta, a camisa era branca, com mangas curtas; na sexta-feira e em datas com algum significado especial, as camisas escolhidas eram de manga longa, uma formalidade própria e em total desacordo com o clima do Nordeste.

    Sua função na repartição era a de revisor de documentos, mas com uma responsabilidade extra: o disque 130. Bastava à qualquer pessoa interessada em saber a hora correta ligar para esse número e seria prontamente atendida por meu avô. Nos almoços de domingo, ele contava feliz sobre ter implementado uma inovação: nos seus atendimentos, passou a informar horas, minutos e segundos.

    No meu aniversário de 16 anos, ganhei de presente seu antigo relógio, o mesmo que, durante anos, foi o responsável por padronizar o horário para os interessados em precisão. Meu avô lamentou que a máquina do relógio já não tivesse mais o mesmo funcionamento. Infelizmente, ele constatou um atraso de alguns milésimos de segundo por dia, o que poderia acarretar um sério problema com o passar das semanas. Apesar de o presente já não ser mais exato, meu avô desejou que o relógio me servisse como uma recordação do tempo que passamos juntos.

    Sou grato por carregar no pulso a história do meu avô. Tenho certeza de que ele ficaria feliz em saber que, após algum esforço, o relógio voltou a funcionar precisamente. E, para aqueles que me perguntam, digo de bom grado as horas com precisão de minutos e segundos, sigo a tradição da nossa família.