Autor: Offsete

  • Lençol, ficar velho e camisas de futebol

    Meu lençol favorito não tem 300 fios, ele é de quando eu não ligava para a quantidade de fios nem para a origem do algodão. Ainda assim, ele é o mais macio e acolhedor. Abrir o guarda-roupa e saber que ele está limpo e disponível para algumas noites de uso é uma pequena alegria na vida

    Suas cores já estão bem desbotadas, está cada vez mais claro, mas ainda dá para notar que ele já teve listras horizontais verde claro e brancas. O tamanho é o de solteiro, e as costuras já estão tão gastas que começaram a rasgar. Como me mexo muito durante o sono, a cada noite ele fica mais desgastado.

    Não faço ideia de como ele chegou à minha vida, provavelmente foi comprado por minha mãe, e foi só recentemente que ganhou o status de lençol favorito. Juntos, já passamos por quatro casas: em duas delas morei com meus pais, em uma morei sozinho e, na última, moro com minha namorada. Ele já foi dividido com dois gatos: a gatinha criada por minha mãe e o primeiro gatinho pelo qual sou integralmente responsável e apaixonado.

    Foram as centenas de noites dormidas, e não a centena de fios, que fizeram com que o lençol ficasse tão confortável. Poucas coisas têm sido legais no processo de ver o tempo passar tão rápido e eu envelhecendo mais cedo do que sinto que deveria, mas olhar um objeto e perceber que ele já faz parte da sua vida há dez anos é assustador e familiar.

    Foi enrolado no lençol que pensei no verdadeiro terror que deve ser para um jogador de futebol ter que usar uma camisa nova a cada partida. Imagina não poder usar algo por tempo suficiente para que isso fique um pouco desgastado e passe, aos poucos, a ter as formas do seu corpo.

    Tenho verdadeiro pavor de tecidos novos demais, e é por não querer essa troca constante de uniforme fictício que decidi, aos 34 anos, me aposentar de uma fictícia carreira tardia no futebol. Só por esse motivo mesmo, não por eu estar envelhecendo.

  • História perna de pau

    É comum entre os circenses ter uma história sobre como foram parar sob as lonas, e minha favorita é, claro, a do meu pai. Ainda pequeno, numa pobre cidade do interior, ver o circo chegar à praça principal foi o maior acontecimento de sua infância difícil. Cresci escutando que sua decisão de se juntar a uma trupe errante aconteceu quando um perna de pau deu uma passada sobre seu corpo e continuou rápido e dançante na sua marcha de gigante para divulgar as atrações da noite de estreia. A chegada do perna de pau foi um verdadeiro encanto em sua vida. Por certo, além de caminhar nas alturas, o circense deveria ser também mágico, pois até então meu pai nunca tinha imaginado que pudesse ser tão grande e ir tão longe de casa.

    Já trabalhando em circos há algum tempo, meu pai conheceu minha mãe. Novamente gostando de enfeitar sua vida, conta que o encontro dos dois só foi possível graças à altura que a perna de pau lhe deu. Minha mãe, além de filha do dono do circo, fazia dupla de trapezista com meu tio e passava mais tempo ensaiando nas alturas da plataforma de salto do que no nível do chão. Não demorou para formarem o mais lindo casal circense de que se tem notícia. E, como no picadeiro cada um tem que se desdobrar para cuidar de várias atrações, logo formaram uma dupla de malabaristas: o Pé sem Chão e a Cabeça de Vento. A sintonia era tão boa que nunca erraram um truque, só ensaiavam na vida real!

    Nasci filho de perna de pau malabarista e trapezista malabarista, sou sobrinho de um trapezista equilibrista e neto de palhaços atiradores de faca donos de circo. Para garantir que eu crescesse encantado pelo picadeiro, meu pai repetiu o truque do velho perna de pau: abria as pernas, e eu, criança, passava por debaixo. A cada passada longa, ele fingia tropeçar e fingia novamente tentar se livrar de mim. Esse foi meu primeiro número.

    No circo aprendi a acreditar repetidamente no mesmo velho truque. E, como todo mundo no circo faz duas coisas, decidi ser palhaço e contador de nossas histórias.

    Venham!

  • Disque 130

    Durante 32 anos, meu avô usou um uniforme autoimposto: seu relógio de cronógrafo branco e pulseira de couro preto, calças de alfaiataria em algodão e sapatos igualmente pretos e sempre engraxados. O cinto era o mesmo do dia do seu casamento, e ele se orgulhava de nunca ter precisado ajustar sequer um furo ao longo das décadas. De segunda a quinta, a camisa era branca, com mangas curtas; na sexta-feira e em datas com algum significado especial, as camisas escolhidas eram de manga longa, uma formalidade própria e em total desacordo com o clima do Nordeste.

    Sua função na repartição era a de revisor de documentos, mas com uma responsabilidade extra: o disque 130. Bastava à qualquer pessoa interessada em saber a hora correta ligar para esse número e seria prontamente atendida por meu avô. Nos almoços de domingo, ele contava feliz sobre ter implementado uma inovação: nos seus atendimentos, passou a informar horas, minutos e segundos.

    No meu aniversário de 16 anos, ganhei de presente seu antigo relógio, o mesmo que, durante anos, foi o responsável por padronizar o horário para os interessados em precisão. Meu avô lamentou que a máquina do relógio já não tivesse mais o mesmo funcionamento. Infelizmente, ele constatou um atraso de alguns milésimos de segundo por dia, o que poderia acarretar um sério problema com o passar das semanas. Apesar de o presente já não ser mais exato, meu avô desejou que o relógio me servisse como uma recordação do tempo que passamos juntos.

    Sou grato por carregar no pulso a história do meu avô. Tenho certeza de que ele ficaria feliz em saber que, após algum esforço, o relógio voltou a funcionar precisamente. E, para aqueles que me perguntam, digo de bom grado as horas com precisão de minutos e segundos, sigo a tradição da nossa família.