Meu lençol favorito não tem 300 fios, ele é de quando eu não ligava para a quantidade de fios nem para a origem do algodão. Ainda assim, ele é o mais macio e acolhedor. Abrir o guarda-roupa e saber que ele está limpo e disponível para algumas noites de uso é uma pequena alegria na vida
Suas cores já estão bem desbotadas, está cada vez mais claro, mas ainda dá para notar que ele já teve listras horizontais verde claro e brancas. O tamanho é o de solteiro, e as costuras já estão tão gastas que começaram a rasgar. Como me mexo muito durante o sono, a cada noite ele fica mais desgastado.
Não faço ideia de como ele chegou à minha vida, provavelmente foi comprado por minha mãe, e foi só recentemente que ganhou o status de lençol favorito. Juntos, já passamos por quatro casas: em duas delas morei com meus pais, em uma morei sozinho e, na última, moro com minha namorada. Ele já foi dividido com dois gatos: a gatinha criada por minha mãe e o primeiro gatinho pelo qual sou integralmente responsável e apaixonado.
Foram as centenas de noites dormidas, e não a centena de fios, que fizeram com que o lençol ficasse tão confortável. Poucas coisas têm sido legais no processo de ver o tempo passar tão rápido e eu envelhecendo mais cedo do que sinto que deveria, mas olhar um objeto e perceber que ele já faz parte da sua vida há dez anos é assustador e familiar.
Foi enrolado no lençol que pensei no verdadeiro terror que deve ser para um jogador de futebol ter que usar uma camisa nova a cada partida. Imagina não poder usar algo por tempo suficiente para que isso fique um pouco desgastado e passe, aos poucos, a ter as formas do seu corpo.
Tenho verdadeiro pavor de tecidos novos demais, e é por não querer essa troca constante de uniforme fictício que decidi, aos 34 anos, me aposentar de uma fictícia carreira tardia no futebol. Só por esse motivo mesmo, não por eu estar envelhecendo.
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