Disque 130

Durante 32 anos, meu avô usou um uniforme autoimposto: seu relógio de cronógrafo branco e pulseira de couro preto, calças de alfaiataria em algodão e sapatos igualmente pretos e sempre engraxados. O cinto era o mesmo do dia do seu casamento, e ele se orgulhava de nunca ter precisado ajustar sequer um furo ao longo das décadas. De segunda a quinta, a camisa era branca, com mangas curtas; na sexta-feira e em datas com algum significado especial, as camisas escolhidas eram de manga longa, uma formalidade própria e em total desacordo com o clima do Nordeste.

Sua função na repartição era a de revisor de documentos, mas com uma responsabilidade extra: o disque 130. Bastava à qualquer pessoa interessada em saber a hora correta ligar para esse número e seria prontamente atendida por meu avô. Nos almoços de domingo, ele contava feliz sobre ter implementado uma inovação: nos seus atendimentos, passou a informar horas, minutos e segundos.

No meu aniversário de 16 anos, ganhei de presente seu antigo relógio, o mesmo que, durante anos, foi o responsável por padronizar o horário para os interessados em precisão. Meu avô lamentou que a máquina do relógio já não tivesse mais o mesmo funcionamento. Infelizmente, ele constatou um atraso de alguns milésimos de segundo por dia, o que poderia acarretar um sério problema com o passar das semanas. Apesar de o presente já não ser mais exato, meu avô desejou que o relógio me servisse como uma recordação do tempo que passamos juntos.

Sou grato por carregar no pulso a história do meu avô. Tenho certeza de que ele ficaria feliz em saber que, após algum esforço, o relógio voltou a funcionar precisamente. E, para aqueles que me perguntam, digo de bom grado as horas com precisão de minutos e segundos, sigo a tradição da nossa família.